Karadzic não comparece, mas julgamento por crime de guerra segue

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HAIA - O líder servo-bósnio na guerra da Bósnia Radovan Karadzic boicotou o início de seu julgamento por algumas das piores atrocidades cometidas na Europa desde a 2a Guerra Mundial, mas juízes disseram que, mesmo se ele continuar a não comparecer ao tribunal, vão levar o julgamento adiante.

Karadzic já se declarou inocente de 11 acusações de crimes de guerra relacionados à guerra da Bósnia de 1992-1995, incluindo uma relativa ao cerco de Sarajevo, que durou 43 meses, e duas acusações de genocídio devido ao massacre de 8.000 homens e meninos muçulmanos em Srbrenica, além de atrocidades mais amplas.

O juiz adiou o julgamento na segunda-feira, depois de aguardar 15 minutos, e disse que ele será retomado na terça-feira às 11h15 (hora de Brasília), com as declarações iniciais da Promotoria. Com isso, assinalou na prática que se prepara para julgar Karadzic, que optou por representar a si mesmo, à revelia.

Manifestantes reunidos diante do prédio do tribunal em Haia reagiram com raiva ao boicote de Karadzic, alguns reclamando que o ex-psiquiatra estaria tentando ditar termos ao tribunal. Karadzic é aguardado novamente no tribunal na terça.

- Ele está zombando da Justiça - disse Jasna Causevic, do grupo Sociedade para os Povos Ameaçados, posicionando-se com membros de cerca de 20 grupos representativos de vítimas em volta de uma faixa contendo os nomes de mais de 8.000 vítimas mortas em Srbrenica, além das palavras "A Vergonha da Europa".

- Karadzic deveria ser trazido ao tribunal de pijama - disse Salihovic Nedziba, 56, muçulmana bósnia de Srbrenica. - Quero que me digam quem matou meu marido e meu filho.

A cadeira ocupada por Karadzic, 64 anos, nos procedimentos preparatórios ao julgamento no Tribunal Criminal Internacional para a ex-Iugoslávia, ficou vazia. Foi onde o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic sentou-se durante quatro anos, antes de seu julgamento terminar com sua morte, em 2006.

A batalha de posições no início do julgamento trouxe ecos do julgamento de Milosevic, que obstruiu os procedimentos para comprar tempo e conseguir concessões da corte.

Os juízes estão ansiosos por dar início ao julgamento do réu mais destacado do tribunal, que foi capturado há 13 meses. No início deste mês Karadzic pediu mais dez meses para preparar sua defesa, mas o pedido foi indeferido.

- Existem circunstâncias nas quais julgamentos podem seguir adiante na ausência do réu que abriu mão por vontade própria do direito de estar presente - disse o juiz sul-coreano O-Gon Kwon, acrescentando que vai obrigar Karadzic a aceitar uma equipe de advogados.

Em resposta aos juízes que o exortaram a comparecer ao julgamento, Karadzic disse que só o faria se estivesse preparado.

- Eu não boicotaria meu julgamento e jamais o boicotarei, mas, se eu não estiver preparado, não será um julgamento - disse Karadzic em documentos divulgados na segunda.

ACUSAÇÕES DE GENOCÍDIO E MASSACRE

A fragmentação da Iugoslávia nos anos 1990 levou sérvios, croatas e muçulmanos a mergulhar em disputas por terra. Mais de 100 mil pessoas foram mortas na guerra e por políticas como a chamada "limpeza étnica".

Ex-presidente da autoproclamada república sérvia bósnia, ou Republica Srpska, Karadzic é acusado de genocídio pelo massacre cometido em Srbrenica em julho de 1995.

Ele também é acusado pelo cerco de 43 meses à capital da Bósnia, Sarajevo, por forças sérvias, no qual entre 10 mil e 14 mil pessoas teriam sido mortas, segundo estimativas.

Karadzic pede imunidade das acusações, dizendo que fechou um acordo secreto com o ex-enviado de paz dos EUA Richard Holbrooke pelo qual não seria levado à Justiça desde que se afastasse da vida pública. Holbrooke negou a existência de qualquer acordo, e o tribunal rejeitou o pedido de imunidade.

Karadzic, que antes da guerra foi psiquiatra especializado em neuroses e depressão, passou a viver na clandestinidade em 1996, depois de ser indiciado pelo tribunal. Ele foi descoberto em Belgrado em julho de 2008 e extraditado para Haia.