Irã volta a negociar com potências

Jornal do Brasil

TEERÃ - As conversas entre Irã, Rússia, Estados Unidos e França sobre o polêmico programa nuclear da República Islâmica tiveram segunda-feira um início construtivo , informou Mohamed ElBaradei, chefe da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), apesar de o Irã ter se negado a negociar com a França e retirado esse país de sua lista de possíveis fornecedores de urânio enriquecido.

O plano original idealizado pelas potências ocidentais na reunião de Genebra, em 1º de outubro, previa a transferência do urânio à França, onde seria transformado em combustível nuclear e depois devolvido ao Irã para uso em um reator científico em Teerã.

Os países analisam agora os termos do envio pelo Irã de cerca de 1,2 toneladas de urânio pouco enriquecido à Rússia, onde deve ser enriquecido até cerca de 20% de pureza.

Tivemos um bom começo. Foi uma reunião muito construtiva. A maioria das questões técnicas foram abordadas disse El Baradei, respaldado pelo chefe da delegação iraniana, o embaixador do país na AIEA, Ali Asghar Sultaniyeh. Continuaremos as negociações terça-feira.

Convocada pela própria AIEA, a reunião de segunda-feira ofereceu a primeira oportunidade para desfazer o impasse sobre suspeitas de que o programa iraniano de enriquecimento de urânio se destina a desenvolver secretamente armas nucleares. O encontro, que pode durar até quarta-feira, é considerado crucial para o futuro das negociações internacionais sobre o programa nuclear do Irã.

Todos os enviados presentes na mesa foram ouvidos garantiu um diplomata ocidental engajado nas negociações. É muito cedo para dizer o resultado, mas não há nada para impedir que as negociações finalmente avancem.

Se um acordo for alcançado, a comunidade internacional ganharia tempo ao extrair do Irã 80% do urânio que já enriqueceu até agora abaixo de 5% (1.500 quilos, segundo a AIEA) na usina de Natanz, no centro do país. Para fabricar uma bomba atômica são necessários cerca de 2 mil quilos de urânio enriquecido acima de 90%.

Ameaça

Pouco antes do encontro, a República Islâmica adotou um tom desafiador ao advertir que continuará a enriquecer urânio por sua conta caso as negociações fracassem.

Se a negociação não tiver o resultado esperado, utilizaremos nossos próprios meios para começar a enriquecer urânio até 20% afirmou, em Teerã, o porta-voz do Organismo Iraniano de Energia Atômica, Ali Shirzadian. É um direito nosso.

Também não ficou claro segunda-feira se as graves acusações de Teerã de que os EUA e a Grã-Bretanha teriam apoiado os terroristas que mataram dezenas de pessoas no domingo, incluindo seis altos funcionários da Guarda Revolucionária em um atentado no Irã, poderiam prejudicar as negociações.

Sanções

O Conselho de Segurança da ONU impôs três rodadas de sanções ao Irã pela recusa do país em frear suas atividades de enriquecimento de urânio. Ao colaborar com as potências na reunião de segunda-feira, o Irã conseguiu evitar a implementação de sanções ainda mais duras.

Em entrevista à agência iraniana de notícias Irna, Shirzadian disse que o fornecimento pelo Ocidente de combustível para o reator de Teerã seria um bom teste para ver se as potências serão honestas com o Irã .

No entanto, ainda segundo Shirzadian, Teerã não tem intenção de parar o enriquecimento de urânio em 5%, mesmo que chegue a um acordo sobre a exportação de urânio enriquecido.

Comprar combustível nuclear do exterior não significa que o Irã vai parar seus trabalhos de enriquecimento dentro do país afirmou Shirzadian. As atividades iranianas para produzir urânio enriquecido em 5% continuarão. Nunca abandonaremos nosso direito de enriquecer urânio.