Carnaval brasileiro em pleno Líbano

Joana Duarte , Jornal do Brasil

BEIRUTE - Se libaneses invadirem o próximo Carnaval do Rio, não se surpreenda. Foi o samba quem mandou chamar.

A pedido da embaixada brasileira em Beirute, passistas, mestres-salas, porta-bandeiras, baianas, músicos e cantores de diversas escolas de samba do Rio viajaram no mês passado ao Líbano, país predominantemente muçulmano, para mostrar o verdadeiro espírito do Carnaval carioca.

Em princípio, a ideia era produzir shows pequenos, com poucos artistas brasileiros. Entretanto, a maior distribuidora de café do país, a Cafe Najjar, grande importadora de grãos brasileiros, decidiu patrocinar o evento e transformá-lo numa grande festa de rua que passaria por quatro cidades Beirute, Batroun, Zahle e Zouk Mikhae com direito a samba-enredo exclusivo (Bota água para ferver), dois carros alegóricos e a participação de aproximadamente uma centena de libaneses no desfile. A última apresentação chegou a reunir cerca de 30 mil expectadores.

Um dos carnavais deveria ocorrer na cidade de Tiro, considerada uma das mais pobres do Líbano, mas depois da divulgação dos desfiles nas outras cidades, um grupo de clérigos muçulmanos da região forçou o cancelamento da folia, alegando que não patrocinariam obscenidades .

O cancelamento ocorreu em cima da hora e foi muito frustrante para os libaneses, muitos dos quais haviam até fretado ônibus para ir ao desfile conta Heloisa Alves, produtora do evento.

Preparativos

Para montar o espetáculo, os cenotécnicos e aderecistas Leonardo Batista e Ieda Vieira viajaram para Beirute duas semanas antes do primeiro desfile, para produzir os carros alegóricos e costurar a maioria das fantasias, contando com a ajuda de mão de obra local e material improvisado que encontraram por lá. Carnavalizaram o uniforme dos funcionários da fábrica da Najjar com chita. Sacos de juta enfeitados com muita purpurina se tornaram a base de um dos carros alegóricos. Estudantes de belas artes da Universidade de Beirute ajudaram na fabricação de xícaras gigantes que adornavam uma das alegorias.

Encontrar profissionais capazes de produzir os desenhos que havíamos trazido foi uma dificuldade lembra Batista. Mais de 10 serralheiros viram os projetos, tomaram um susto e disseram que aquilo era impossível. Tentávamos convencê-los de que, no Brasil, fazíamos aquilo e muito mais todos os anos, mas não adiantava: Isso aqui vai aqui? , diziam, indignados. Não dá. Impossível .

Finalmente, apareceu um serralheiro mais atrevido que topou, e, segundo a produção brasileira, fez tudo perfeito .

Alguns dias antes da viagem do grupo de artistas, selecionados entre profissionais de várias escolas de samba do Rio, a dançarina Danúbia Silva, acompanhada de um percussionista, viajou para Beirute com a missão de ensinar dançarinos e músicos libaneses a caírem no samba.

Eles gostaram muito e teve gente de lá que acompanhou toda a turnê. Mas com apenas quatro aulas, sambar para valer foi difícil diz Danúbia.

Quando se empolgavam, conta, dançavam qualquer coisa, menos samba, e os percursionistas locais mudavam o ritmo, tendendo mais para a música libanesa.

Desjejum

Questionada sobre o assédio masculino, a passista Laiza Bastos não nega que os olhares dos libaneses eram diferentes , talvez mais intensos do que ela está acostumada a receber no Brasil. Além disso, lembra Laiza, eles tinham acabado de sair do período de penitência do Ramadã, mês durante o qual os muçulmanos praticam o seu jejum ritual e renovam a fé.

Antes de chegar lá, estava temerosa e não contei aos meus parentes para onde ia afirma Laiza. Mas tirando alguns engraçadinhos, a maioria dos homens foi muito respeitosa. O curioso foram as mulheres muçulmanas, que empurravam os mais acanhados para tirarem fotos conosco. Tinha outra senhora, mais velhinha, que pedia para tirar fotos com as meninas, mas quando chegávamos perto, arrancava uma pena da nossa fantasia. Certamente, fez uma coleção.

A folia contagiou também os policiais, membros do Exército e outros responsáveis pela segurança dos desfiles. Admirados pelo espetáculo, esqueciam de conter o público, que invadia o desfile apenas para tocar nas fantasias e alegorias. Cordão de isolamento? Nem pensar. Só mesmo na Sapucaí.

A polícia olhava o desfile e até se esquecia porque estava lá. Eu vi alguns guardas tirando máquinas fotográficas de dentro do coldre comenta Batista.

Mas talvez o que mais tenha marcado o espírito carnavalesco foi uma interação rápida com um senhor libanês da plateia. Antes do desfile, ele se aproximou de Batista para perguntar:

Você é brasileiro?

Quando a resposta veio afirmativa, o tal senhor desapareceu. Mas voltou em seguida enrolado numa bandeira do Brasil.

Eu gosto muito do Brasil disse ele. Você podia autografar minha bandeira?

Missão cumprida:

Autografei e ele saiu, todo orgulhoso, pedindo para outros brasileiros assinarem também lembra Batista.

Mas, para o cenotécnico, o verdadeiro motivo de orgulho da viagem foi ter inaugurado o primeiro botequim do Líbano uma espécie de mercearia que antes só vendia cerveja quente, e olhe lá .

Eles não têm o costume de sentar na rua para beber. Improvisamos banquinhos, aperitivos e ensinamos o proprietário a gelar a cerveja libanesa, que é leve como a nossa, mas não tão boa.