Honduras: Começa campanha contra as eleições

Jornal do Brasil

TEGUCIGALPA - Durante todo o dia de ontem, a página principal da edição on-line do jornal hondurenho El Heraldo era o melhor exemplo do que acontecia em Tegucigalpa: festa pela classificação da seleção nacional para a Copa do Mundo de 2010. O súbito clima de harmonia em meio a um país que pena para resolver a pior crise política de sua história abafou a reunião entre negociadores do presidente deposto, Manuel Zelaya, e do golpista, Roberto Micheletti, que tentavam chegar a um acordo em pleno feriado nacional decretado por Micheletti.

Mas alegria e tranquilidade não devem ser a regra no dia de hoje, o primeiro depois do prazo dado por Manuel Zelaya para sua volta ao poder. Ainda abrigado na embaixada brasileira, o líder que comemorou a vitória de sua seleção com bolo e festa espera que seus simpatizantes deflagrem hoje uma série de protestos incitando a população hondurenha a boicotar as eleições marcadas para 29 de novembro.

Sobre sua permanência na embaixada, o chanceler brasileiro, Celso Amorim, reiterou ontem que não há prazo definido para o presidente deposto deixar o prédio, que permanece cercado pelas forças de segurança hondurenhas. Zelaya está na embaixada brasileira em Tegucigalpa desde que retornou clandestinamente ao país, em setembro.

Nós não demos prazo para ele (Zelaya deixar a embaixada brasileira) disse o ministro durante a 2ª Conferência das Comunidades Brasileiras no Exterior.

Confiança

Amorim se declarou confiante num acordo entre Roberto Micheletti, e Manuel Zelaya para pôr fim à crise deflagrada pelo golpe em 28 de junho, apesar de persistir o impasse nas negociações entre os representantes dos dois lados, que não se entendem sobre a volta de Zelaya à Presidência.

Acho que houve um avanço importante, só de ter diálogo já é importante. A informação que temos é que houve acordo num bom número de pontos. Confiamos que essa aprovação venha, porque Honduras precisa de paz.

Na quarta-feira, os negociadores do governo golpista e do presidente deposto chegaram a um acordo preliminar para superar a crise decorrente do golpe de Estado, mas não concordaram em um ponto-chave: se o Congresso ou a Justiça decide sobre a volta de Zelaya ao poder.

Amorim também lembrou a classificação da seleção hondurenha de futebol para a Copa do Mundo do ano que vem, na África do Sul, e acrescentou esperar que a conquista inspire os dois lados do conflito a chegar a um consenso.

Hoje há um diálogo que não existia, mas a solução virá dos hondurenhos com a ajuda da comunidade internacional. Vamos torcer para que a vitória deles no futebol inspire sentimentos pacifistas e permita uma rápida conclusão dessa negociação disse.

Celebração

Gritos de alegria e bandeiras sendo agitadas substituíram na noite de quarta-feira as manifestações políticas e as bombas de gás lacrimogêneo nas ruas de Tegucigalpa, que deixou temporariamente em segundo plano a crise institucional para comemorar a classificação para a Copa do Mundo de 2010.

Desde o golpe militar de 28 de junho, Honduras se acostumou a toques de recolher, restrições à imprensa e distúrbios em passeatas. Mas desta vez o que se viu foram eufóricas celebrações e o disparo de rojões depois da vitória de 1 x 0 sobre El Salvador.

Em combinação com o crucial gol do último minuto dos EUA contra a Costa Rica, o resultado garantiu a ida de Honduras a uma Copa pela primeira vez desde a inédita participação de 1982.

Neste momento esquecemos tudo isso de crise, estamos só comemorando. Estou feliz demais! gritou Marlon Ramos, 23 anos, pulando numa alameda repleta de torcedores na capital.