Honduras: AL estaria dividida entre duas tendências políticas

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - O embaixador Marcos Azambuja, ex-secretário geral do Itamaraty e atual vice-presidente do Conselho Curador do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), participou quarta-feira de uma mesa redonda organizada pela própria Cebri, que também contou com a presença de Peter DeShazo, ex-subsecretário de Estado norte-americano para Assuntos Hemisféricos e representante permanente dos EUA junto à Organização dos Estados Americanos (OEA). Durante a mesa, Azambuja afirmou que há hoje na América do Sul duas tendências políticas bem distintas e difíceis de conciliar.

A primeira, de caráter mais nacionalista e populista, busca a criação de democracias diretas, sem intermediações representativas, e procura legitimar-se por meio de frequentes plebicitos e referendos.

Isso é o que se vê essencialmente nas políticas venezuelana, equatoriana e boliviana explica. Os outros países são mais atrelados a uma ideia clássica de democracia, por meio de representatividade parlamentar e eleições duradouras.

A crise política em Honduras, que dura mais de três meses, é um exemplo atual da dificuldade de harmonizar esses interesses. O presidente deposto, Manuel Zelaya, eleito democraticamente com o apoio das elites, decidiu, ao longo do seu governo, conduzir a política nacional rumo a uma tendência mais populista , ao convocar uma consulta popular com vistas a uma possível reforma da Constituição. Foi o estopim do golpe.

Depusemos Zelaya por seu esquerdismo e corrupção. Ele foi um presidente liberal, como eu, mas se fez amigo de Daniel Ortega, Chávez, Correa e Evo Morales , afirmou o presidente golpista, Roberto Michelleti, numa entrevista ao jornal argentino Clarín em setembro.

Uma das principais questões debatidas agora é até que ponto a comunidade internacional deve se intrometer em Honduras. A postura moderada do presidente norte-americano, Barack Obama, por exemplo, que não reconheceu o governo golpista, mas não teria se empenhado diretamente na solução do conflito, gerou críticas de que os EUA teriam sido complacentes com o golpe e mostrado até mesmo um certo desdém para com os países da região.

Mas para o embaixador Peter DeShazo, a reação dos EUA ao condenar o golpe foi extremamente apropriada , alinhando-se aos outros membros da OEA.

É interessante que a postura de Obama seja rotulada de controversa e ao mesmo tempo criticada por todos os lados. Alguns republicanos, por exemplo, o acusam de ter agido com demasiada energia ao repudiar o regime de fato. Acho que quando todos o criticam, é provavelmente um sinal de que que sua postura está correta afirmou DeShazo.