Entrevista: tráfico de cocaína dispara em Honduras após o golpe

REUTERS

TEGUCIGALPA - O número de aviões que traficam cocaína através de Honduras disparou desde que os Estados Unidos suspenderam a cooperação antidrogas em reação ao golpe militar de junho, disse na terça-feira o chefe de combate ao narcotráfico do país centro-americano.

Honduras vive uma fase de isolamento internacional por causa do golpe, o que inclui a perda de 16,5 milhões de dólares em ajuda militar norte-americana.

Julián Aristides, chefe da agência antidrogas de Honduras, disse que o governo de facto, envolvido numa grave crise política, não tem uma estratégia clara para o setor, embora o governo deposto tampouco tenha ido bem no combate ao narcotráfico.

Só no último mês as autoridades encontraram dez aviões abandonados em pistas e estradas remotas, disse Aristides, um general da reserva. No ano passado, segundo ele, houve apenas quatro casos.

- É fato, os voos se intensificaram - disse ele à Reuters no seu modesto gabinete em Tegucigalpa.

A situação pode prejudicar o esforço antidrogas do México, onde o presidente Felipe Calderón mobilizou milhares de soldados para tentar enfraquecer os cartéis e coibir uma onda de violência entre traficantes que matou 14 mil pessoas desde o final de 2006.

Pouco povoada, Honduras tem falhas na cobertura de radares, e traficantes com óculos de visão noturna pilotam pequenos aviões que abastecem caminhões e navios com droga vinda da Colômbia e do México e que é levada a outros mercados, especialmente os EUA.

As agências norte-americanas continuam compartilhando informações com as autoridades hondurenhas, mas não podem mais participar de operações de combate ao tráfico. Antes do golpe os EUA forneciam helicópteros à Força Aérea local, além de cederem combustível e logística para embarcações de interceptação.

- Desde a substituição do presidente isso foi suspenso, e não temos o apoio que era tão importante devido à nossa falta de tecnologia - disse Aristides.

Segundo ele, quase todos os aviões encontrados recentemente em Honduras estavam pintados com registros venezuelanos, e os pilotos costumam ser colombianos.

- É a população dos Estados Unidos que irá sofrer, porque quanto mais droga chega a Honduras, mais droga pode chegar aos Estados Unidos - afirmou.

A ONU diz que a costa venezuelana está sendo usada pelos cartéis para traficar cocaína via Honduras, e especialistas afirmam que os cartéis mexicanos e colombianos estão treinando traficantes centro-americanos.