Rivais cedem em busca do diálogo

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO - Sob forte pressão interna e externa, o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, e o golpista, Roberto Micheletti, começaram a mudar o tom de seus discursos para tentar resgatar o país da pior crise na América Central nos últimos anos. Micheletti decidiu recuar do ultimato que havia imposto ao Brasil para que definisse o status de Zelaya, hospedado na embaixada brasileira em Tegucigalpa há 10 dias, e assegurou que deixa o cargo se as instituições hondurenhas determinarem que Zelaya deve ser restituído. Do outro lado, em uma entrevista ao jornal uruguaio El Observador, Zelaya garantiu estar disposto a responder na Justiça pelos crimes a ele atribuídos, desde que volte a assumir a Presidência.

Micheletti já havia anunciado, na quarta-feira, que está considerando os apelos para revogar o decreto de estado de emergência que suspendeu liberdade civil no país, mas reiterou que a Rádio Globo e a TV Cholusat Sur (Canal 36), favoráveis ao antigo governo, permaneceriam fechadas.

A nova flexibilidade demonstrada por Micheletti reforça a tese de que sua gestão começa a perder o apoio das instituições hondurenhas que, de início, apoiaram o golpe, mas agora parecem incomodadas com o isolamento internacional, preferindo o retorno à normalidade.

Missão brasileira

Entre as autoridades do governo golpista, não é só Micheletti que parece acuado. Os deputados da missão brasileira que estiveram ontem com representantes da Suprema Corte de Honduras perceberam também uma certa falta de objetividade na postura dos poderes Executivo e Judiciário hondurenhos. Por um lado, as autoridades atualmente no poder seguem defendendo a legalidade do golpe, porém não descartam uma eventual aceitação da proposta do presidente costarriquenho, Oscar Arias, que sugere a volta de Zelaya.

Os ministros justificaram a legalidade das medidas que tomaram, mas ninguém assume a culpa pelo fato de Zelaya ter ido parar de pijamas na Costa Rica disse o deputado Ivan Valente (PSOL-SP), um dos integrantes da comissão brasileira, depois da reunião com membros da Suprema Corte de Honduras. No fundo, eles sabem que ocorreu uma violação de dispositivos constitucionais.

Já no encontro da missão brasileira com o comissário dos Direitos Humanos hondurenho, Ramón Custódio, os deputados perceberam uma postura confusa .

Ele é contra o estado de sítio, contra o prazo de 10 dias dado ao Brasil para que defina o status de Zelaya na embaixada e contra sua expulsão do país. Mas apoia o regime golpista. É uma contradição muito grande diz Valente.

Embaixada

Uma das poucas questões que, aparentemente, é unanimidade em Honduras diz respeito ao Brasil: a garantia da integridade da embaixada em Tegucigalpa. Neste sentido, as autoridades hondurenhas foram claras ao assegurar que não haverá violação à imunidade diplomática da representação brasileira e que o prazo de 10 dias, inicialmente estipulado para que o Brasil definisse o status de Zelaya, não terá consequência para o Brasil. Roberto Micheletti chegou a dizer que não havia sido consultado antes de seu chanceler ameaçar a imunidade diplomática brasileira.

Apesar das concessões, o presidente golpista segue apostando que a comunidade internacional aceitará o resultado das eleições presidenciais convocadas para 29 de novembro.

Manuel Zelaya, que se indispôs com as elites políticas e empresariais conservadoras por causa dos seus vínculos com o governo socialista da Venezuela, voltou a negar ontem ter violado a Constituição e insistiu na sua inocência.

Estou disposto a ir aos tribunais para responder aos processos que há contra mim, não tenho problema quanto a isso complementou. Por isso voltei, porque sou inocente.

Na semana que vem, a Organização dos Estados Americanos (OEA) enviará uma delegação a Honduras para mediar negociações entre Zelaya e Micheletti. Segundo Micheletti, os dois presidentes mantém um canal de comunicação aberto por meio de um amigo em comum que visitou Zelaya na semana passada.

Novos protestos

Manifestantes pró-Zelaya, que haviam marcado um novo protesto na manhã de ontem em frente ao Canal 36, fechado pelo governo interino, mudaram a estratégia e seguiram para a embaixada norte-americana quando policiais cercaram a sede da emissora. A manifestação ocorreu sem confrontos.

Em declaração aprovada por unanimidade, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas voltou a condenar ontem as violações cometidas em Honduras desde o golpe e solicitou a pronta restauração da democracia no país.