Entrevista: "os eleitores alemães estão mais imprevisíveis"

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Os alemães vão às urnas hoje para escolher um novo parlamento, que decidirá quem ocupará o cargo mais importante do país pelos próximos quatro anos. Em entrevista ao JB, Peter Fischer-Bollin, presidente da Fundação Konrad Adenauer, no Rio, faz um balanço dos últimos quatro anos da chamada grande coalizão, liderada pelos partidos mais populares da Alemanha: a União Democrata Cristã (CDU), da chanceler Angela Merkel e atual favorita para reassumir o cargo, e o Partido Social Democrata (SPD), de Frank-Walter Steinmeier, principal rival de Merkel nestas eleições, mas seu atual vice-chanceler.

Como o senhor avalia a grande coalizão entre a União Democrata Cristã (CDU) e o Partido Social Democrata (SPD)?

Avalio como muito produtiva, que obteve bons resultados, embora tenha sido um governo de exceção por representar as duas maiores forças políticas do país. Apesar do bom êxito, é importante agora voltar à normalidade, com a presença de uma oposição mais influente e atuante.

Apesar do tamanho da coalizão CDU/SPD, o senhor acredita que Merkel conseguiu imprimir um estilo próprio ao governo?

Ela resolveu grandes problemas da política alemã e acho que o mais importante foi ter sabido responder ao desafio da crise econômica. Nesse sentido, a coalizão a beneficiou, pois foi mais fácil criar e executar leis em poucos dias. Nos últimos quatro anos, Merkel contou com o apoio de mais de 60% dos deputados.

Tendo em vista que os dois principais candidatos dessas eleições são respectivamente chanceler e vice-chanceler do atual governo, o senhor considera a plataforma de Steinmeier muito diferente da de Merkel?

É diferente no que diz respeito à política econômica. Ele está promovendo a criação de um salário mínimo, que era um instrumento desconhecido na Alemanha até o ano passado. As indústrias e os sindicatos sempre regularam salários por meio de negociações. Enquanto isso, Merkel promove uma reforma tributária com o objetivo de reduzir impostos para os contribuintes. Concordo com os críticos que dizem que a campanha não foi muito excitante. Afinal, os partidos dos principais candidatos estão atualmente governando juntos, são aliados. Fica difícil fazer campanha quando nenhum dos dois quer atropelar o trabalho do governo.

Pesquisas recentes chamam a atenção para o fato de haver ainda cerca de 40% de indecisos. Eles poderão provocar um resultado surpreendente?

Estive na Alemanha há duas semanas e ouvi de muita gente essa teoria. Uma tendência recente na sociedade alemã é que todos buscam se tornar eleitores independentes. Antigamente, era evidente que certas pessoas votariam sempre em certos partidos, mas hoje os alemães são mais imprevisíveis, decidindo em que partido votarão a cada eleição.

O senhor concorda com Merkel, que um governo de coalizão entre o CDU e o Partido Liberal Democrata seria mais eficaz do que a grande coalizão atual?

Acho que sim, porque eles são mais parecidos nas questões de políticas públicas, como as reformas do Estado, da previdência social e tributária. E no aspecto democrático também acho melhor, pois teríamos um governo mais coerente contra uma oposição mais forte e isso daria ao eleitor uma imagem mais clara das políticas de cada um. Nos últimos quatro anos da grande coalizão, alemães não conseguiram distinguir bem a posição de cada partido.

O resultado das eleições pode influenciar as relações entre Brasil e Alemanha?

Pode. Se a atual coalizão permanecer no poder ou se formar um governo entre o CDU e os liberais, isso garantiria a continuidade das boas relações com o Brasil em questões sensíveis para os dois países, como o meio ambiente e as mudanças climáticas. Agora, acredito que se houver uma coalizão entre o SPD e os Verdes, isso prejudicaria essa relação, pois os Verdes são mais rígidos nas suas políticas ambientais.