Governo de Honduras suspende toque de recolher e confirma dois mortos

Agência ANSA

TEGUCIGALPA - O governo de facto de Honduras, presidido por Roberto Micheletti, anunciou a suspensão do toque de recolher a partir da manhã de hoje. A medida havia sido imposta na última segunda-feira, logo após o retorno do presidente deposto, Manuel Zelaya, que se encontra na Embaixada brasileira em Tegucigalpa.

- A partir das seis da manhã de quinta-feira será revogado o toque de recolher em todo o território nacional - diz a mensagem oficial, divulgada pela imprensa do país. O texto pede também que funcionários e trabalhadores "retomem suas atividades" e afirma que as forças locais garantirão "a ordem e a tranquilidade".

Micheletti decretou o toque de recolher assim que foi confirmada a notícia de que Zelaya estava no país. A medida, inicialmente, duraria até a manhã de terça-feira, mas foi estendida por mais 24 horas.

De acordo com informações da imprensa local, os arredores da sede diplomática brasileira estão cercados por policiais e militares. Na madrugada de terça-feira, a embaixada, que abriga cerca de 100 pessoas junto a Zelaya, teve luz, água e telefone cortados. Os serviços já foram restabelecidos.

Ontem foram confirmadas as mortes de dois manifestantes, que teriam entrado em confronto com a polícia local.

Fontes do Hospital Escola confirmaram a morte de um membro da Frente Nacional de Resistência contra o Golpe de Estado, grupo formado por simpatizantes do mandatário democraticamente eleito por Honduras e que protestam contra o regime golpista.

Segundo as mesmas fontes, a vítima havia sido atingida na região do estômago por um disparo das forças locais. As autoridades policiais, por sua vez, informaram a morte de outro militante, que participava de uma manifestação. - Não sabemos como ele morreu. Não sabíamos se havia sido agredido, abriremos uma investigação para saber o que ocorreu - disse o porta-voz da Polícia Nacional, Orlin Cerrato.

Segundo a Cruz Vermelha, nos confrontos da última terça-feira pelo menos 200 pessoas ficaram feridas. Ontem, entre 10.000 e 15.000 partidários de Zelaya tomaram as ruas de Tegucigalpa para responder ao apelo do presidente deposto.

Durante a 64ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciada ontem em Nova York, os líderes latino-americanos pediram o retorno à normalidade institucional em Honduras e advertiram que as eleições programadas para o dia 29 de novembro são "ilegítimas", caso sejam realizadas nas atuais condições.

- Que o golpe em Honduras não coloque em risco as conquistas da América Latina em matéria de democracia e institucionalidade - declarou o presidente de El Salvador, Mauricio Funes, em seu discurso. Ele também disse não reconhecer o pleito de novembro, que "carece de legitimidade e transparência".

Em sua intervenção, o boliviano Evo Morales pediu que a ONU emita "uma resolução com um ultimato" para que o governo golpista restitua Zelaya ao poder.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, primeiro a discursar no evento, também exigiu a restituição do governante constitucional de Honduras e pediu pela segurança da representação diplomática brasileira.

Por sua vez, a ONU anunciou a suspensão da "assistência técnica" que daria para as eleições presidenciais de Honduras, alegando que "não há condições" para celebrar comícios "críveis" no país. Em nota, Michele Montas, porta-voz do secretário-geral da entidade, Ban Ki-moon, indicou que a ONU está "preocupada com a situação" de Honduras, onde há relatos de "violações dos direitos humanos".