Brasil busca liderança no processo de paz no Oriente Médio

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O governo brasileiro vem tomando uma série de iniciativas em relação ao Oriente Médio, que têm contribuído para destacar o papel que o Brasil pode desempenhar no conflito entre israelenses e palestinos naquela região. Uma semana após a visita do ministro das Relações Exteriores israelense, Avigdor Lieberman, recebido em Brasília pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a Organização das Nações Unidas realizou nesta segunda-feira no Rio, o Seminário Internacional de Mídia sobre a Paz no Oriente Médio, evento que reuniu autoridades palestinas, israelenses e brasileiras onde se enfatizou o potencial brasileiro para interlocutor respeitado por ambos os lados do conflito.

Se há algo que sentimos como limitado é o fato de os interlocutores serem sempre os mesmos. Falta um arejamento de posições salientou o chanceler brasileiro, Celso Amorim, acrescentando que o Brasil está sendo praticamente convocado a estar presente na mesa de negociações.

Segundo Amorim, a visita de Lieberman estimulou uma participação mais intensa do Brasil nas negociações de paz no Oriente Médio. O próprio chanceler israelense caracterizou o Brasil como o país em melhor posição para facilitar o diálogo na região , disse Amorim.

O chanceler ressaltou ainda que, embora esteja otimista quanto a conseguir chegar a uma solução satisfatória na região, existem três exigências que teriam um impacto decisivo: o fim dos assentamentos em território palestino, o término do bloqueio a Gaza e também dos mais de 600 check points, ou barreiras de segurança, espalhadas pelos territórios palestinos através dos quais a movimentação da população palestina é minuciosamente monitorada estratégia israelense que Amorim caracterizou como insuportável .

O assessor especial do presidente Lula para política internacional, Marco Aurélio Garcia, indicou que na intervenção brasileira não há vontade de protagonismo, mas sim uma indicação de que o Brasil não é mais um país conformado com a ordem assimétrica em que grandes potências decidem os assuntos importantes pelo resto da humanidade.

Estamos perdendo nosso complexo de vira-lata ironizou Garcia. Queremos participar das decisões no momento em que as consequências de decisões incorretas são pagas por todos e não somente pelas grandes potências que geralmente tomam as decisões.

Apesar do otimismo brasileiro, o colunista político palestino e editor do Al-Quds, jornal de maior circulação em Gaza, Mohammed Shaker Abdallah, lembrou que seis meses depois do fim dos bombardeios israelenses em Gaza, os bloqueios que limitam a movimentação de bens e pessoas na região sufocam a população palestina, impedindo qualquer tipo de reconstrução.

Revolução

Para israelenses que participaram do seminário, entre eles o ex-vice-ministro das Relações Exteriores Eli Dayan e o rabino emérito da Congregação Israelita Paulista Henry Sobel, está em curso uma verdadeira revolução do pensamento israelense, pois hoje há um consenso nacional sobre a necessidade de uma solução que incorpore a criação de um Estado palestino.

Até a liderança direitista de Israel estaria disposta a pagar um preço alto pela paz, observa Dayan, e esse consenso gera uma oportunidade histórica para se renovar o diálogo.

O momento é agora porque o linha-dura Netanyahu já está se tornando moderado reiterou Sobel. O Brasil deveria pensar em ser anfitrião de uma cúpula de paz em um futuro próximo.