Para coronel reformado, falta de prudência dos EUA pode custar caro

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Nos últimos 10 anos, os Estados Unidos se mostraram incapazes de reconhecer a influência russa sobre os países do Cáucaso, envolvendo-se diretamente em guerras nos Balcãs e minando uma relação de respeito mútuo que mantinham com a Rússia desde o final da Guerra Fria, e que até agora não conseguiram recuperar. É o como avalia o coronel reformado David Glantz, um dos principais especialistas mundiais em história militar da antiga União Soviética e da atual Rússia, que acaba de lançar em São Paulo o seu livro Confronto de titãs como o Exército Vermelho derrotou Hitler.

O senhor considera que a Rússia é uma prioridade do governo de Barack Obama?

Não, mas deveria ser. Desde 1995, atitudes imprudentes dos EUA prejudicaram muito as relações entre os dois países, como, por exemplo, nossa intervenção direta nas guerras dos Balcãs e na Chechênia. Durante muito tempo fomos incapazes de entender que a Rússia tem interesses estratégicos nessas regiões, que devem ser respeitados por nós. O resultado foi que acabamos perdendo o que era de fato uma relação de confiança e respeito mútuo. Dediquei os últimos seis anos da minha carreira militar tentando convencer os russos de que os EUA não são uma nação agressiva, e que a Otan é uma aliança apenas defensiva. Entretanto, os eventos na Bósnia , liderados pela Otan, negaram isso tudo, e mudaram a opinião dos russos que já haviam sido convencidos do contrário.

Por que a comunidade internacional fez tão pouco para evitar a guerra do ano passado nas regiões separatistas da Geórgia, Abcásia e Ossétia do Sul?

Sinceramente, não fiquei chocado com a invasão. Existe um grande mal-entendido nos EUA em relação à Ossétia do Sul e à Abcásia. Elas pertenciam à Rússia e nunca tiveram um bom relacionamento com a Geórgia, que agiu precipitadamente, pois pensou que dispunha de um maior apoio da Otan.

O senhor acha que Obama deveria desistir da instalação do escudo antimíssil na Polônia?

O escudo é claramente um sistema defensivo para proteger a região dos Estados radicais, como é o caso do Irã. Se não tivéssemos permitido a deterioração de nossas relações com a Rússia, acho que o escudo não seria encarado pelos russos como uma ameaça. Acho que o governo Obama está certo em insistir no escudo, na medida em que o Irã insiste em desenvolver armas nucleares.

O senhor lutou na Guerra do Vietnã. Há semelhanças entre a tática usada pelo Exército vietnamita e a estratégia dos extremistas no Oriente Médio?

Todo Exército sempre se prepara para travar sua última batalha. Nunca vi um Exército capaz de se preparar para todas as variáveis dos conflitos. No Vietnã, travamos os chamados conflitos de baixa intensidade. Na década de 80, lutamos uma guerra convencional na Europa central. A guerra no Iraque foi originalmente conduzida como uma guerra convencional, mas tivemos de nos adaptar à guerrilhas. Hoje estudamos com cuidado o melhor modo de lidar com o Afeganistão, examinando erros no Iraque, mas é importante ressaltar que ninguém nunca conseguiu aplacar o Afeganistão, por seu terreno difícil e o fato de se localizar em lugar tão remoto do planeta. Essa guerra também requer muita paciência, coisa que não temos. Culturalmente, os EUA não toleram algo que dure mais do que algumas semanas. Nesse caso, se não aprendermos a ter a paciência, pagaremos um preço alto demais.