Israelenses contam sobre instrução para usar palestinos como escudos

Jornal do Brasil

JERUSALÉM - Abrimos fogo e não fazemos perguntas , lembra um soldado israelense que participou da ofensiva israelense a Gaza, em janeiro, sobre a instrução que lhe foi dada. Ao

seu lado, outro acrescenta: Nos disseram que deveríamos arrasar

a maior parte possível da nossa zona . Seguido por outro: Meu comandante me disse, meio sorrindo meio sério, que essas demolições poderiam ser somadas à sua lista de crimes de guerra .

As chocantes revelações foram feitas por um grupo de soldados israelenses que participou das ações militares em janeiro, da qual relatam abusos frequentes alguns que poderiam ser classificados como crimes de guerra contra civis durante o confronto com militantes do grupo palestino Hamas.

As declarações anônimas dos mais de 25 soldados foram feitas à organização Breaking the Silence (Quebrando o Silêncio), uma instituição de veteranos israelenses contra abusos no Exército.

Segundo os depoimentos de oficiais divulgados pela ONG, os soldados de Israel que combateram em Gaza utilizaram civis como escudos humanos e receberam instruções de abrir fogo sem preocupação com as consequências.

Os soldados teriam afirmado também que escudos humanos eram usados em buscas realizadas em prédios suspeitos. O vandalismo contra propriedades palestinas teria sido frequente durante a ofensiva. Um dos relatos afirma ainda que aos soldados foi repetidamente ensinado que em guerras urbanas, qualquer um é inimigo, não há inocentes .

No relatório, os soldados descrevem que as regras de conduta permissivas do Exército não distinguiam civis e combatentes e resultaram em um golpe massivo e sem precedentes contra os civis.

Já as mortes de israelenses, de acordo com os relatos feitos à Breaking the Silence, deveriam ser prevenidas, mesmo que às custas de vidas palestinas.

Mesquitas

O documento cita a destruição de centenas de casas e mesquitas sem que isto tenha objetivos militares, o uso de fósforo branco contra zonas habitadas, a morte de vítimas inocentes assassinadas com armas leves, a destruição de propriedades privadas e (...) uma atmosfera permissiva na estrutura de comando que permitiu aos soldados agir sem obrigações morais .

O informe foi elaborado com os testemunhos anônimos de soldados que combateram na ofensiva israelense que durou de 27 de dezembro a 18 de janeiro.

Os depoimentos provam que a forma imoral como se desenvolveu a guerra foi provocada pelos sistemas estabelecidos e não pelos soldados individualmente analisou Mikhael Manekin, que integra a organização não-governamental.

O Exército israelense, no entanto, rebateu as acusações e afirmou em um comunicado que, de acordo com suas investigações, está claro que os soldados das Forças Armadas israelenses operaram de acordo com as leis internacionais e as ordens que receberam, apesar de combates difíceis e complexos .

Na nota militar alega-se ainda que muitos depoimentos são anônimos e carecem de detalhes que permitiriam ao Exército investigar, confirmar ou rebater os mesmos .

A ofensiva de Israel na Faixa de Gaza em janeiro deixou mais de 1.400 mortos, sendo mais de 900 civis, além de 5 mil feridos palestinos, segundo um balanço dos serviços médicos palestinos.

Do lado israelense, de acordo com dados oficiais, morreram 10 militares e três civis.