Sob ameaça, gays vão para Ancara

Khalid al-Ansary, REUTERS

ISTAMBUL, TURQUIA - Perseguidos e com medo, homossexuais trocam capital iraquiana por refúgio na secular Turquia

Os militantes iraquianos avisaram Ameer que iriam matá-lo por trabalhar para o Eexército dos EUA. Depois, recebeu uma ameaça de morte mais assustadora, por ser gay. Decidiu então vender sua casa em Bagdá e se mudou para a Turquia.

Agora, o rapaz de 28 anos de família de classe média divide um pequeno apartamento em Istambul com mais cinco homens gays iraquianos, exilados após uma onda de intolerância. Ele conta que, pela primeira vez na vida, pode expressar sua orientação sexual em público.

A homossexualidade é proibida em quase todo o Oriente Médio, mas as condições para os gays e lésbicas no Iraque se tornaram particularmente perigosas desde o surgimento de milícias religiosas, depois que as forças lideradas pelos Estados Unidos removeram Saddam Hussein seis anos atrás.

Poderia ser seguido e morto se eu dissesse que era gay disse Ameer à Reuters. Mas aqui na Turquia somos tratados como humanos e temos direitos, o que não acontece em meu país.

Na capital iraquiana, ele mantinha a homossexualidade em segredo, escondendo até da família. Em um país onde atos homossexuais são punidos com até sete anos de prisão, apenas seus amigos mais íntimos sabiam que era gay.

Ameer continuou a morar em Bagdá mesmo depois de seus parentes fugirem da violência sectária do Iraque, vivendo em um distrito muçulmano xiita e trabalhando para os americanos na Zona Verde altamente protegida da capital. Foi quando as ameaças de morte começaram.

Sermões condenando a homossexualidade são dados por clérigos nas preces na cidade de Sadr, uma favela xiita em expansão, onde seis homossexuais foram encontrados mortos em março e abril quatro deles com a palavra pervertido em árabe escrita nos peitos.

Uma autoridade local, que não quis se identificar, descreveu os outros dois como depravados sexuais e disse que os homens tinham sido mortos pelas suas tribos para restaurar a honra das famílias deles.

Sem medo

A cidade de Sadr é um baluarte de apoio para o exaltado clérigo xiita antiamericano Moqtada al-Sadr e sua milícia Mehdi Army. A Mehdi Army interrompeu as atividades no ano passado e as forças do governo iraquiano retomaram o controle.

Muitos dos homens jovens que devem ter cortado o cabelo curto e deixado a barba crescer quando os grupos religiosos controlaram grande parte do Iraque agora se vestem com um estilo mais ocidental, já que as forças do governo patrulham as ruas. Resultado: alguns são acusados de ser homossexuais.

Ameer, que deixou a capital iraquiana em junho de 2007, teve um pedido de asilo aprovado depois de três entrevistas nas instalações da Organização das Nações Unidas (ONU) na capital turca de Ancara. Ele tem esperança de um dia se juntar aos parentes nos Estados Unidos.

Amigos e primos nos Estados Unidos me disseram que vou gostar do cenário gay lá, e que não vou ficar envergonhado por ser homossexual conta.

Por enquanto, ele está gostando de viver em um país secular muçulmano onde não se sente ameaçado todos os dias. Ameer sobrevive com o pouco dinheiro que os familiares enviam para ele, enquanto seus colegas de quarto recebem cerca de US$ 500 por mês lavando carros.

Não temos mais medo das ameaças islâmicas aqui disse Safwan, um dos amigos de Ameer. Hoje eu pensaria 100 vezes antes de voltar para o Iraque.