Argentina: 'Eleições não significam mudança de modelo político'

FABIANA NANÔ, Agência ANSA

BUENOS AIRES - As eleições legislativas que ocorrem na Argentina neste domingo não colocam em xeque um modelo de administração, mas representam a disputa entre diferentes setores políticos do país, disse à ANSA o professor Luis Fernando Ayerbe, da Unesp.

Ayerbe, que é argentino e estudioso da América Latina, contestou desta forma a imagem que o casal Kirchner, no poder desde 2003, busca transmitir: a de que uma derrota governista no pleito para o Congresso acabaria com um modelo político que até agora priorizou "o trabalho e a produção interna".

- Não é o peronismo que deixa de estar no poder, mas a linha progressista dos Kirchner - sustentou o analista, referindo-se às várias vertentes oriundas de uma única corrente, criada pelo ex-presidente Juan Domingo Perón.

De fato, uma das principais forças da oposição é a conservadora União-PRO, formada por peronistas dissidentes que se uniram ao partido conservador Proposta Republicana, do chefe de Governo da cidade de Buenos Aires, Mauricio Macri.

Ayerbe considera, neste sentido, que tanto a presidente Cristina Kirchner quanto seu marido e antecessor no poder, Néstor Kirchner, entendem como um "modelo único" o que na verdade é a apenas uma variação do peronismo.

No domingo, 27,8 milhões de pessoas votarão para renovar metade das 257 cadeiras da Câmara dos Deputados e um terço dos 72 assentos do Senado.

A principal disputa se dá na Província de Buenos Aires, colégio eleitoral que reúne 38,9% dos votos do país. Lá, Néstor Kirchner lidera a lista da Frente pela Vitória, sublegenda do Partido Justicialista (peronista), e leva consigo outros nomes de peso, como o próprio governador da província, Daniel Scioli.

O adversário é o empresário Francisco de Narváez, da União-PRO, e pesquisas de intenção de voto apontam resultados bastante equilibrados.

A presidente Cristina tem uma preocupação especial com Buenos Aires porque, pela primeira vez, o governo corre o risco de perder a maioria que detém no Congresso. Em algumas regiões do país, a derrota já é dada como certa.

Sem maioria no Legislativo, segundo Ayerbe, a presidente teria menos "margem de manobra" para apostar em "grandes aventuras".

Influências

Na opinião do professor, os Kirchner têm uma trajetória política bastante "pragmática", já que no poder firmaram alianças com setores populares e conservadores.

Este pragmatismo, de acordo com o especialista, tem sua expressão sintetizada na figura do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva. "O Brasil é visto como um exemplo, pois Lula soube fazer alianças estratégicas."

Seguindo esta linha, os Kirchner buscaram ter boas relações tanto com o governo de Barack Obama nos Estados Unidos quanto com o de Hugo Chávez na Venezuela.

Recentemente, a oposição passou a acusar o casal de ter a gestão chavista como modelo e, desta forma, promover uma série de nacionalizações no país. O tema sobre o papel do Estado acabou sendo um dos eixos das campanhas eleitorais.

Ayerbe, no entanto, disse acreditar que esta é uma questão secundária:

- São argumentos puramente eleitoreiros. As nacionalizações do governo dos Kirchner são muito diferentes das de Chávez. Elas têm menos força - sustentou. - Na Venezuela, o Estado tem um amplo controle sobre vários setores da economia. Na Argentina, apenas algumas empresas foram estatizadas.

Por este motivo, o que está em jogo nestas eleições legislativas são, antes de tudo, questões "de momento, de oportunidade", mais do que uma disputa ideológica, concluiu o professor.