Agricultores são desafio para a gestão Kirchner

Da redação, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Um ano depois de protestos, luta para derrubar presidente persiste

Sob um cenário ainda incerto, o ex-presidente Néstor Kirchner e a sua esposa e atual presidente Cristina passam, com as eleições legislativas de domingo, pela grande prova da gestão da ex-primeira-dama e senadora que, apesar de eleita há quase dois anos com mais de 44% dos votos, hoje vê sua popularidade cair.

Ainda que os Kirchner consigam manter a maioria no Legislativo, terão como desafio até as eleições gerais de 2011 a crescente insatisfação por setores-chave para a economia, como os agricultores.

Em San Pedro, a 165 km a noroeste de Buenos Aires, no coração do conflito entre o setor rural e a presidente argentina, os produtores agrícolas estão decididos a fazê-la pagar por sua política nas eleições legislativas de domingo.

Aqui começou tudo há mais de um ano lembra Raúl Victores, presidente da Sociedade Rural de San Pedro, importante centro produtor de cereais no país.

Naquele 19 de março de 2008, mais de mil produtores vindos de toda a região bloquearam a rota Pan-Americana em San Pedro, cidade de 50 mil habitantes.

Havia mais de 300 caminhões, campos incendiados e a fumaça chegava até Buenos Aires lembra Héctor Salmoiraghi, produtor de 46 anos.

Foi a forma que os produtores encontraram para reagir à decisão do governo na época de aumentar em 25% o imposto das exportações de soja, principal produto de exportação do país. A medida provocaria um conflito inédito, que freou a atividade do país por seis meses.

Desde então, a presidente e seu marido enfrentam uma onda de forte oposição no campo. O casal, que joga todas as fichas nas eleições deste domingo, poderia perder o controle do Congresso.

Em março, a mandatária havia começado a negociar um acordo com os representantes agrícolas, golpeados não apenas pelas retenções (impostos sobre as exportações), mas também pela pior seca que o país enfrentou em mais de 50 anos.

Mas alguns dias depois, Cristina pôs fim às negociações e anunciou sua decisão de adiantar para 28 de junho as eleições legislativas previstas para outubro. Isto exacerbou ainda mais a ira dos produtores agrícolas, que classificaram a medida como uma nova manobra de distração.

O verdadeiro inimigo é o kirchnerismo dispara Victores, que foi preso por 12 horas no início dos protestos.

A Argentina, maior exportador mundial de farinha e óleo de soja, registrou baixa de US$ 20 bilhões a US$ 25 bilhões anuais oriundos da exportação de matérias-primas. Também perdeu entre 1,5 e 1,8 milhão de cabeças de gado em menos de um ano devido à seca.

Envolvimento

Apesar de, em questão de minutos, os agricultores conseguirem organizar um protesto, agora a forma de protestar mudou: os produtores ingressaram na política e dezenas deles se postulam a cargos domingo.

A 66 km dali, no Club Atlético Almirante Brown de Arrecifes, de 30 mil habitantes, Roberto Donnola, de 53 anos, é um deles. Candidato ao Conselho Deliberante Comunal, ele confessa que o conflito foi mais forte que seu envolvimento com a política, mas está ansioso.

Nos demos conta que sem participar é difícil que haja mudança explica Donnola.

(Com AFP)