Alan García admite 'erros' e pede 'reconciliação' ao Peru

Agência ANSA

LIMA - O presidente peruano, Alan García, admitiu em um pronunciamento à nação que os conflitos do último dia 5 que deixaram mais de 30 mortos na região amazônica do país foram consequência "de erros e exageros".

Em uma mensagem transmitida por todas as emissoras do país, García declarou que "chegou o momento de fazer um balanço, de reconhecer a sucessão de erros e exageros que todos vivemos, de alguma ou de outra forma", ao mesmo tempo em que pediu que sejam evitadas "a morte e a dor que são irremediáveis e que, se ocorreram, retifiquemos, nos reconciliemos e recomecemos".

García, que completará em julho o terceiro dos cinco anos de seu mandato, atribuiu ao seu governo o erro de não ter dialogado com as comunidades amazônicas antes de emitir um conjunto de decretos presidenciais para, segundo ele, desenvolver a região e impedir o desmatamento, o narcotráfico e a poluição.

Os confrontos na Amazônia peruana, que no último dia 5 deixaram pelo menos 34 mortos - entre policiais e civis, foram iniciados quando o governo ordenou que autoridades reprimissem um protesto realizado em uma estrada na cidade de Bagua.

Os manifestantes, de comunidades indígenas e que há mais de dois meses realizam protestos na região, bloqueavam há dez dias a rodovia, uma das medidas para exigir a revogação de decretos presidenciais que, segundo eles, permitem a exploração dos recursos naturais locais.

Por outro lado, o mandatário pediu "calma, serenidade e confiança, essa que existia há duas semanas" e ratificou o pedido feito na última terça-feira pelo presidente do Conselho de Ministros, Yehude Simon, para que o Congresso derrogue dois dos dez decretos questionados pelos indígenas.

- Sei que o Parlamento irá compreender.

Em relação aos exageros, García afirmou que por trás dos "agitadores" na Amazônia peruana "há políticos de outros países" que buscam "acabar com o otimismo" dos peruanos e "impor suas ideologias" e que convenceram os indígenas de que esses decretos têm o objetivo de tirá-los de suas terras.

Por trás das manifestações, segundo o mandatário, estão os "inimigos do Peru", que querem "impor suas ideias estrangeiras", "criminosos" que armaram emboscadas e assassinaram um grupo de policiais, quando estes se dispunham a dispersar os nativos.

Por outro lado, comunidades indígenas acusam o governo de ter cometido "um genocídio" na região e afirmam que pelo menos 30 nativos morreram e um número indeterminado está desaparecido.

Em um vídeo divulgado ontem pela imprensa local, o sacerdote Mario Bartolini, da paróquia de Barranquita, na região de San Martín, qualificou García como "terrorista e assassino" e condenou o que chamou de "ação criminosa das autoridades que hoje nos governam". Em alusão ao confronto, o religioso disse que "as vítimas caíram sob as balas de um presidente terrorista e assassino":

- Todos estão mortos e isso significa aceitar de forma silenciosa o ato criminoso e assassino do governo", que pratica "uma política insensível e genocida, porque nossos irmãos (os indígenas) não são terroristas, terroristas são os que saem do governo, que venderam o Peru.

O Plenário do Congresso debate hoje a revogação dos decretos, que estão suspensos desde a última semana.

Líder indígena

Assim que chegou à Nicarágua, o líder indígena Alberto Pizango afirmou, por sua parte, esperar poder "coordenar a nível internacional para que os direitos dos povos (indígenas peruanos) sejam respeitados".

Acusado pelo governo do Peru de perturbação da ordem pública, conspiração e rebelião, Pizango teve prisão decretada pela Justiça do país na última semana. No último dia 9, ele se refugiou na Embaixada da Nicarágua em Lima e solicitou asilo a esse país.

O governo peruano concedeu na última terça-feira um salvo-conduto, que permitiu que o líder indígena deixasse o país.