Tensão na Coreia do Norte adiou inauguração de embaixada brasileira

Joana Duarte, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Não fosse o agravamento das tensões na Península Coreana, o diplomata carioca Arnaldo Carrilho teria inaugurado nesta sexta-feira a primeira embaixada do Brasil e da América Latina na Coreia do Norte. Mas o inusitado teste nuclear desta semana fez com que o Itamaraty suspendesse a inauguração e a viagem de Carrilho, que agora aguarda em Pequim a resolução da ONU para saber se poderá assumir seu cargo em Pyongyang. Por telefone, Carrilho conversou com o JB sobre as recentes provocações do regime comunista e como este comportamento influenciará na sua gestão.

Como o senhor reagiu quando foi instruído a adiar a inauguração da embaixada? Concorda com a decisão do Itamaraty?

Concordo, até porque nosso chanceler Celso Amorim já havia alertado seu colega norte-coreano que apesar de termos amplo espectro de atuação, temos também limites, que são aqueles pautados pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O Itamaraty disse que o comércio não foi o motivo da instalação da embaixada brasileira. Qual teria sido então?

O motivo é o protagonismo diplomático que o Brasil tem demonstrado nos últimos seis anos. A questão norte-coreana é importante no tabuleiro internacional, sendo um país que sofre de isolamento por parte do Ocidente. O Brasil, que já mantém alianças com outros países da região, quer ajudar o regime a restabelecer o diálogo com a comunidade internacional. O comércio bilateral entre os países também se desenvolveu muito nos últimos anos. De US$ 104 milhões em 2006, chegou a US$ 281 milhões no ano passado.

De que modo o comportamento provocativo do regime poderá refletir no seu trabalho?

Tenho instruções para desenvolver ao máximo as relações Brasil-Coreia do Norte e vou com grande disposição. Há grupos interessados em desenvolver imediatamente o comércio bilateral. Cito a Sadia, que já mandou uma delegação a Pyongyang e se mostra interessada em exportar carne suína e de frango para lá. Também estou notando interesse no mercado de commodities de carne por parte da Friboi, que mantém frigoríficos e gado cativo na Austrália. Quero desenvolver ainda a parte cultural. Estou planejando a tradução de obras brasileiras e uma exposição do Oscar Niemeyer, assim como de artistas que adotaram um tipo de arte que se assemelha ao realismo socialista praticado na Coreia do Norte, como Carlos Scliar. Além disso, trazer nosso audiovisual, já que o líder norte-coreano é aficionado por cinema.

A Coreia do Norte é um dos países mais isolados do mundo. Como e porque isso dificulta a aplicação de sanções efetivas?

É isolada porque é um país que não aderiu ao processo de desestalizinação, que começou a ocorrer na União Soviética em 1956. O país adotou aquilo que chamam de juche, teoria de socialismo nacionalista criada pelo pai do atual líder, e, com isso, o regime se isolou não só das áreas de prosperidade e de economia de mercado, mas também dos próprios países socialistas, que foram se modificando pouco a pouco até o fim da União Soviética.

Alguns analistas sugerem que o teste nuclear é sinal de que Kim Jong-il quer fortalecer seu regime agora para facilitar sua sucessão. O senhor concorda?

Claro que ele deve estar preparando a sucessão, mas não creio que faça testes nucleares por causa do processo sucessório. O que noto é que o país está de fato procurando evitar que seu isolamento influencie no fim do regime. Querem preservar o regime e ser aceitos no clube atômico, por isso fazem demonstrações de tecnologia.

Como a Coreia do Norte não tem potencial militar que possa representar uma ameaça aos EUA, o senhor concorda que o temor é de que a China venha a tomar as dores do país?

A China está muito distanciada. O grande temor vem da própria Coreia do Norte. O medo norte-coreano é uma das razões que leva o governo a se comportar desta maneira. Medo dos EUA e de atentados ao regime que querem preservar.