Coreia do Norte abandona trégua de 1953 e ameaça Seul com ataque

Agência AFP

SEUL - A Coreia do Norte elevou o tom nesta quarta-feira ao afirmar que o país não está mais sujeito ao armistício de 1953 com a Coreia do Sul, ameaçando o vizinho com um ataque militar, o que representa uma escalada da tensão, dois dias depois do anúncio de seu segundo teste nuclear.

O regime comunista informou que considera uma declaração de guerra a decisão anunciada na terça-feira pela Coreia do Sul de aderir à Iniciativa de Segurança contra a Proliferação (PSI), em um comunicado do Exército divulgado pela agência oficial norte-coreana KCNA.

- Qualquer ato hostil contra nossa República, em particular deter ou inspecionar nossos navios se traduzirá de imediato em uma forte resposta militar - adverte o Exército da Coreia da Norte no comunicado divulgado pelo destacamento militar da aldeia neutra de Panmunjong, no centro da zona desmilitarizada.

- Nosso Exército não está mais sujeito ao acordo de armistício, na medida em que os Estados Unidos fizeram os ''fantoches'' entrarem no PSI - completa o texto.

As duas Coreias continuam oficialmente em estado de guerra, já que não assinaram um tratado de paz após o conflito de 1950-1953.

Até o momento, a Coreia do Sul tinha apenas o status de observador na PSI.

Lançada em 2003 pelos Estados Unidos, a PSI, que teve a adesão de 90 países, autoriza a revista em alto mar dos navios suspeitos de transportar material nuclear e outras armas de destruição em massa.

- Se Pyongyang já não se considera sujeita ao armistício de 1953, a península coreana voltará ao estado de guerra - adverte o Exército norte-coreano.

- Os que nos provocaram devem enfrentar uma sanção sem piedade e inimaginável - ameaçou Pyongyang.

- Os imperialistas e os traidores que cercam Lee Myung-bak (presidente sul-coreano) empurraram a península coreana para o estado de guerra.

O regime comunista também anunciou que não garante o estatuto legal de cinco ilhas sul-coreanas do mar Amarelo, em uma zona disputada entre o Norte e o Sul e que foi cenário de combates navais em 1999 e 2002.

Os Estados Unidos reagiram através da secretária de Estado Hillary Clinton, que reafirmou o compromisso americano de defender a Coreia do Sul, um de seus principais aliados asiáticos, no caso de um ataque.

A Casa Branca, por sua vez, advertiu que as ameaças de Pyongyang servem apenas para reforçar seu "isolamento".

As relações entre as duas Coreias pioraram após a chegada ao poder em Seul, em fevereiro de 2008, de Lee Myung-bak, qualificado regularmente de "traidor" pelo regime norte-coreano.

Rompendo com a postura dos antecessores que buscaram uma conciliação com Pyongyang, Lee adota uma posição firme em relação ao Norte e condiciona a ajuda de seu país aos progressos verificáveis no processo de fim do programa nuclear de Pyongyang.

Depois de quase seis anos de complexas negociações multilaterais, os negociadores não conseguiram convencer a Coreia do Norte a renunciar ao programa nuclear.

O presidente sul-coreano, Lee Myung-bak, pediu "reações calmas" às ameaças, ao mesmo tempo em que o ministério da Defesa informou que não reforçará a presença militar na fronteira entre os dois países.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, respaldou a iniciativa sul-coreana de aderir à PSI.

Depois do anúncio, na segunda-feira, de um segundo teste nuclear (o primeiro aconteceu em 2006), que provocou a condenação da comunidade internacional, a Coreia do Norte lançou um novo míssil nesta quarta-feira, elevando a cinco a quantidade de mísseis disparados desde segunda-feira, segundo Seul, e não seis como havia sido informado anteriormente.

Além disso, a Coreia do Norte também teria retomado, segundo a imprensa sul-coreana, a produçção de combustível nuclear em Yongbyon.

O Conselho de Segurança da ONU prepara uma resolução que provavelmente incluirá novas sanções contra Pyongyang.

Nesta quarta-feira, o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov afirmou que Moscou é favorável a uma "resolução dura" do Conselho de Segurança, presidido este mês pela Rússia, mas não quer uma punição em vão.

- O Conselho de Segurança da ONU deve se expressar de maneira dura e deve adotar medidas que na prática ajudem a prevenir uma futura erosão do regime de não proliferação de armas nucleares - declarou Lavrov.

- Nós devemos ainda encontrar maneiras nesta resolução para criar as condições de retomar as negociações a seis - afirmou a respeito das reuniões que incluem as Coreias, Estados Unidos, China, Rússia e Japão.

- Não devemos procurar punir apenas pela punição. O problema só pode ser resolvido com conversações - completou.

O ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, considerou nesta quarta-feira que nenhum projeto de resolução deve ser aprovado antes do fim da semana.

Já o primeiro-ministro japonês, Taro Aso, disse achar "importante que sejam incluídas novas sanções" na resolução do Conselho de Segurança.

A presidência da Coreia do Sul informou que combinou com a Rússia um trabalho conjunto para obter uma reação internacional enérgica à Coreia do Norte, após uma conversa telefônica entre os presidentes russo, Dmitri Medvedev, e sul-coreano, Lee Myung-bak.

Uma fonte diplomática russa citou ainda a necessidade da resolução ser incluída no Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, que dá amplos poderes de ação ao Conselho de Segurança, inclusive militares, para tratar de ameaças à paz.

Embaixadores em Nova York afirmaram que o Conselho vai precisar de algum tempo para elaborar uma resolução.

Para Cheong Seong-chang, pesquisador do Instituto Sejong, as ameaças do Norte "atiçarão as tensões intercoreanas e é possível que se produza um enfrentamento naval na costa oeste".

De acordo com sismólogos americanos, a bomba utilizada no teste nuclear norte-coreano foi cinco vezes mais potente do que a do teste de 2006.