Passado de papa lembrado em visita

Jornal do Brasil

JERUSALÉM - Em meio a críticas sobre a performance do papa Bento XVI no Memorial do Holocausto, em Israel, o Vaticano fez uma negação surpreendente ontem ao declarar que o pontífice alemão não teria sido membro da Juventude Hitleriana durante sua adolescência. O foco no passado do líder católico ameaça eclipsar a mensagem de paz e reconciliação que vem promovendo durante toda sua peregrinação à Terra Santa.

O papa nunca, nunca, foi membro da Juventude Hitleriana, que era um movimento de voluntários fanáticos disse o porta-voz do Vaticano, o sacerdote Franco Lombardi. Tudo isso está em sua autobiografia.

Lombardi explicou que o pontífice alemão, de 82 anos, foi recrutado contra sua vontade como auxiliar de defesa antiaérea para a proteção das cidades e que nunca esteve neste movimento juvenil sustentado ideologicamente no nazismo .

Contudo, o próprio papa já disse, em entrevistas publicadas em 1996 no livro Salt of the Earth (Sal da Terra, em tradução livre) quando ainda era cardeal, que antes de se tornar auxiliar de defesa aérea, que tinha sido alistado, junto com muitos outros meninos alemães de sua idade, na Juventude Hitleriana, na qual serviu com relutância.

Quando a compulsória Juventude Hitleriana foi criada em 1941, meu irmão foi obrigado a se alistar. Eu ainda era muito novo, mas depois, como seminarista, fui cadastrado na JH. Assim que saí do seminário, eu nunca mais voltei , disse ele.

Muitos acharam que a visita do papa a Yad Vashem , o Memorial do Holocausto que comemora o assassinato de 6 milhões de judeus pelos nazistas, não demonstrou remorso suficiente vindo de um alemão com seu passado.

Tudo que se pediu de você foi que dissesse uma frase breve, autoritária e comovente. Tudo que precisava fazer era exprimir remorso. Era só isso que queríamos ouvir lamentava o jornal Yediot Aharonot. . Afinal de contas, reivindica-se que você nomeou para sua igreja um padre que nega o Holocausto, e quando era um menino, você foi membro da Juventude Hitleriana .

A polêmica se aprofundou após o pontífice ter perdoado e anulado a excomunhão do bispo britânico Richard Williamson, que negou a extensão da chacina nazista.

O rabino Meir Lau, presidente do conselho do Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém, foi um dos que ficaram desapontados com o discurso feito pelo papa Bento XVI na instituição israelense.

Para Meir Lau, ex-Grão Rabino de Israel e sobrevivente do Holocausto, o líder da Igreja Católica perdeu um momento histórico em seu discurso, que fez parte da visita oficial de cinco dias do pontífice a Israel e aos territórios palestinos.

Houve algumas coisas que não foram mencionadas no discurso do papa declarou Lau. Ele não mencionou o número exato das vítimas do Holocausto e, diferentemente de seu antecessor (o papa João Paulo II), que disse a palavra assassinados , o papa atual disse que as vítimas foram mortas .

Meir Lau também disse que o papa anterior mencionou que os assassinos foram os nazistas, e, no caso de hoje [segunda-feira], não foi dito quem foram os assassinos, não se mencionou nem os nazistas e nem os alemães .

O maior site de notícias de Israel, o Ynet, resumiu a visita do papa ao Museu do Holocausto com as palavras acabou mal .

O governo de Israel, no entanto, quis amenizar a posição do Museu do Holocausto.

Não costumamos criticar visitas tão importantes como o papa Bento 16 disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yossi Levy. Do nosso ponto de vista, a visita do papa é um dos eventos mais importantes da história de Israel.