Cidade de Fritzl vive entre vergonha, indignação e silêncio

Leandro Demori, Portal Terra

AMSTETTEN, ÁUSTRIA - O trem que parte de Viena rumo a oeste e leva à cidade de Amstetten precisa de cerca de uma hora para contornar os morros baixos e as imensas áreas reflorestadas da região. Faz frio na pequena cidade de 25 mil habitantes a 130 km da capital da Áustria. O esforço das engrenagens e o atrito nos trilhos faz sombra à dificuldade para conseguir qualquer informação na cidade onde Josef Fritzl trancafiou a filha Elisabeth por 24 anos. Ninguém na cidade fala sobre o assunto.

Encontrar a casa é o primeiro desafio, uma tarefa de tentativa e erro depois que os repórteres de veículos e agências internacionais debandaram para St. Pölken, onde ocorre o julgamento. A saída foi entrar em um café, pedir alguma coisa quente para beber e, aos poucos, puxar conversa sem se identificar como jornalista. Com um pouco de insistência a atendente desenhou um mapa precário em um pedaço de papel. As indicações tomam uma hora de caminhada e muitas idas e vindas.

Ao caminhar pelo bairro com câmera na mão, as janelas e lojas vão se fechando, e as pessoas atravessam a rua. A vida desses moradores vem se resumindo à história do "Monstro da Áustria" desde que o caso foi descoberto, em abril do ano passado. A imprensa e tudo o que gira em torno desse fato se tornaram inimigas da comunidade.

Por sorte, a barreira feita pela polícia em frente à casa para impedir o aglomerado de fotógrafos foi desmantelada. Pode-se (sabendo o endereço) chegar à porta da casa dos Fritzl - um antigo prédio de dois andares todo cinza, que escondia em 60 m² no porão uma segunda família com rotinas e vida próprias, privada de liberdade.

A casa está vazia, as janelas estão semi-cerradas e o lixo se acumula do lado de fora da porta. O nome da família foi arrancado do interfone para evitar ao máximo a ação de curiosos. Por uma das janelas é possível ver um pedaço do interior do imóvel, que está em estado de abandono. Mesmo sem a ação da polícia, no entanto, fotografar não é tarefa fácil.

Logo um dos vizinhos aparece e exige que uma equipe de televisão italiana deixe sua calçada. Na frente do imóvel, do outro lado da rua, o trabalho não melhora. Carros passam a todo o momento, buzinam, freiam bruscamente os pneus, ameaçam parar e gritam palavrões. Por estes lados, ninguém mais quer saber da imprensa. Para os moradores da pequena Amstetten, a história de Josef e Elisabeth Fritzl precisa ser enterrada no passado.