Apresentador nacionalista é voz do capitalismo na China

Portal Terra

CHINA - Com apenas 31 anos, Rui Chenggang emergiu como o rosto do capitalismo chinês na mídia: jovem, inteligente e, para desgosto de alguns, profundamente nacionalista.

Seu programa noturno de notícias financeiras costuma atrair cerca de 13 milhões de telespectadores diários na China Central Television, a maior das redes estatais de TV chinesas, e nele Rui faz perguntas ríspidas aos líderes de Wall Street e a economistas chinesas, mas sem deixar de destilar certa dose de otimismo quanto às perspectivas chinesas.

Ele também mantém um blog muito visitado, caracterizado por uma forte retórica patriótica. E recentemente publicou um livro, A Vida Começa aos 30, no qual reflete sobre o milagre econômico da China e sobre o que vê como o difícil caminho à frente para seu país.

Na introdução ao livro, o reitor da Universidade Yale, Richard Levin, define Rui como "um jovem e enérgico porta-estandarte da Nova China". Alguns críticos são menos generosos, e o classificam como incansável em termos de autopromoção e como ferramenta de propaganda do Partido Comunista.

Rui (pronuncia-se "rei") vai ao trabalho de Jaguar e usa ternos Zegna, e afirma que seus objetivos vão além do estrelato na mídia. Ele deseja usar sua celebridade para construir pontes com o Ocidente e ajudar a transformar a opinião mundial quanto à China, que ele diz sofrer devido às distorções na cobertura da mídia estrangeira e às deficiência de treinamento do país quanto à comunicação.

- A China tem um problema de imagem realmente sério - disse Rui depois de um seus programas noturnos, enquanto relaxava no hotel Ritz-Carlton.

- Estou formando um grupo de pessoas, e temos a esperança de fazer alguma coisa a esse respeito.

Os seus defensores afirmam que a crescente influência de Rui entre os jovens reflete o desenvolvimento da China nos 20anos transcorridos desde o governo reprimiu as manifestações pró-democracia na praça Tiananmen, em Pequim.

Mas seus esforços se enquadram ao objetivo do governo chinês de utilizar a mídia controlada pelo Estado a fim de melhorar a imagem do país no exterior, especialmente depois que o percurso mundial da tocha olímpica, no ano passado, foi prejudicado por protestos internacionais.

Pequim está pressionando suas grandes operações de mídia, todas as quais são pesadamente censuradas e operam sob o controle do departamento de propaganda do governo, a expandir suas atividades no exterior. Sob uma das propostas, a China pode até mesmo criar um canal de notícias 24 horas a fim de competir com redes internacionais de notícias como a CNN e a BBC, a fim de apresentar uma visão mais positiva sobre a ascensão chinesa.

Rui Chenggang pareceria ser o perfeito modelo de um esforço nacional de construção de imagem como esse.

No final de janeiro, no Fórum Econômico Mundial em Davos, o jovem e ousado jornalista conseguiu entrevistas com alguns dos maiores nomes presentes ao evento: o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair; Craig Barrett, da Intel; e Stephen Schwarzman, do Blackstone Group. Ele troca mensagens de e-mail com o primeiro-ministro australiano Kevin Rudd, e se encontra três vezes por ano com "Henry", como ele diz ¿o diplomata norte-americano Henry Kissinger.

Também diz que tirou férias em companhia de assessores dos líderes chineses e moderou programas de TV dos quais participaram os principais líderes do país, entre os quais o presidente Hu Jintao.

Seu tom na TV é sério, planejado. Fora do ar, ele parece um executivo de banco de investimento que tenha se candidatado a um cargo político. Cita Lao Tzu, faz referências à Odisséia, de Homero, explica as armadilhas do setor de capital privado e analisa a posição da China na crise econômica mundial.

- Na China, não temos nem crise financeira, nem crise econômica - diz. - A China está passando por uma série desaceleração. O mundo atravessa uma recessão sincronizada. Como jornalista, não devo exagerar.

Fluente em inglês, treinado como diplomata e bem informado sobre finanças mundiais, Rui muitas vezes parece um ativista ou crítico cultural, instando os leitores de seu blog e livro a reconhecer o valor da cultura tradicional e até mesmo a adquirir produtos feitos na China.

Em 2007, seu blog deu origem a um movimento de base que ajudou a expulsar a Starbucks da região histórica de Pequim conhecida como Cidade Proibida. (Rui considerava inadequada a presença de uma marca norte-americana na área; agora, o espaço que a loja de café ocupava abriga uma casa que serve chás chineses.)

Nem todo mundo aprecia as campanhas pessoais que ele promove.

- Como apresentador de televisão ele não é de todo mau, em minha opinião - disse Zhan Jiang, professor de jornalismo na Universidade China Jovem de Ciências Políticas, em Pequim.

- Mas, fora do ar, ele é um tantinho repulsivo. Se você protesta contra a presença da Starbucks no antigo palácio imperial, por que não protesta quanto a falar inglês com seus amigos chineses na China? É um ultranacionalismo de mente estreita.

Rui nasceu em 1977, e seu progresso espelha o da China nos 20 últimos anos, quando a geração de jovens frustrados, irados mas ainda assim idealistas que cresceu nos anos 80 deu lugar a uma geração mais afluente, nascida depois que o governo impôs a restrição de no máximo um filho por família.

Ele estudou na Universidade de Assuntos Internacionais de Pequim, com a intenção de se tornar diplomata. Mas tudo mudou, disse, depois de conhecer Boutros Boutros-Ghali, antigo secretário geral das Nações Unidas, quando este fez uma visita à sua escola no final dos anos 90.

Rui lembra de ter perguntado a Boutros-Ghali que nação ele recomendaria selecionar caso surgisse uma sexta vaga no Conselho de Segurança da ONU. Boutros-Ghali respondeu: "a CNN", alegando que a influência da rede de notícias a cabo é maior que a da maioria dos países.

E por isso, depois de se formar em 1999, Rui aceitou emprego na China Central Television, e rapidamente ascendeu pelas fileiras da organização, ajudando a estabelecer o primeiro canal em inglês da rede e trabalhando como repórter e apresentador do BizChina, um programa noturno de notícias empresariais.

O programa lhe propiciava acesso aos convidados poderosos em suas visitas a Pequim, e o ajudou a conquistar respeito no exterior. Recentemente, ele se transferiu para um dos canais em chinês da China Central, o que permite que ele amplie seu alcance e sua popularidade no interior da China, visto que o trabalho que fazia no canal de notícias em inglês da organização se dirigia principalmente a telespectadores internacionais.

Guo Zhenxi, presidente do canal 2 da CCTV, diz que Rui já está fazendo uma grande diferença ao ajudar a melhorar a cobertura das notícias financeiras durante a crise mundial, e que ele atrai até 28 milhões de telespectadores ao dia, o que representa a maior audiência já registrada por um programa de notícias financeiras.

- Ele é o maior astro entre os nossos apresentadores", diz Guo. - Pela primeira vez, estamos examinando a saúde do país por meio de um programa de televisão.

Porque as posições que ele defende durante o programa muitas vezes imitam as críticas de Pequim a jornalistas estrangeiros, Rui costuma ser questionado quanto à possibilidade de que esteja envolvido em propaganda a mando do governo. Mas ele compara o seu trabalho ao telejornalismo da rede de notícias Fox News nos Estados Unidos durante o período de governo republicano.