Bolívia: Morales defende consumo legal de coca

Agência ANSA

LA PAZ - O presidente da Bolívia, Evo Morales, descartou nesta segunda-feira a possibilidade de proibir o consumo de coca no país e anunciou que lutará contra a criminalização do cultivo da planta, vigente desde 1961 pela Convenção de Viena.

O presidente atribuiu o desvio de coca para fabricação de cocaína "à cultura ocidental" e disse estar "confiante" de que seus argumentos para descriminalizar a planta serão atendidos durante a reunião da Comissão de Entorpecentes das Nações Unidas, que será realizada em Viena a partir de quarta-feira.

Segundo o mandatário, "por pressões do Departamento de Estado norte-americano", não foi divulgado oficialmente um estudo, realizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que prova que o consumo da folha de coca não causa danos à saúde.

Na Bolívia, a coca é tradicionalmente consumida em forma de chá e por pessoas que mascam as folhas.

Morales afirmou que durante a reunião provará "com argumentos científicos, culturais, econômicos e políticos" que é impossível acabar com o consumo da folha de coca.

O encontro da Comissão de Entorpecentes das Nações Unidas vai analisar, entre outros temas, a aplicação da Convenção de Viena de 1961 sobre entorpecentes, que criminalizou a coca como produto base para a produção de cocaína e recomendou a eliminação de seu cultivo em 25 anos.

A Bolívia ratificou a Convenção de Viena em 1976. Posteriormente, um relatório da Junta Internacional sobre Entorpecentes exortou governos a adotarem até 2002 medidas não apenas para eliminar as plantações, mas também o consumo legal da folha de coca.

Morales qualificou essa recomendação como "uma agressão e uma ameaça à nossa cultura e ao nosso povo", em uma entrevista coletiva na qual confirmou sua viagem a Viena, junto a quatro representantes dos produtores de coca.

Antes de chegar ao governo, o próprio presidente ganhou projeção política como líder sindical da produção de coca.

Ele reiterou que na Bolívia "não haverá cultivo livre de coca, mas também as plantações não serão completamente eliminadas". Haverá apenas uma racionalização dos cultivos, "porque não somos da cultura da cocaína".

Na Bolívia, há 20 anos existe uma lei que criminaliza com penas severas o uso ilegal de coca. O país é o terceiro maior produtor mundial de cocaína, atrás de Colômbia e Peru.