Clinton deixa direitos humanos em segundo plano para discutir economia

Agência AFP

AFP - Antes de deixar Pequim, Hillary Clinton pediu à China que continue financiando a dívida americana, no encerramento de sua viagem pela Ásia, a primeira como secretária de Estado do presidente Barack Obama, ao longo da qual priorizou o diálogo no campo econômico e deixou de lado a discussão dos direitos humanos.

Clinton insistiu na interdependência existente entre Washington e Pequim, primeira e terceira economias mundiais, ao término de sua viagem asiática, que a levou também ao Japão, à Indonésia e à Coréia do Sul.

- Ao seguir apoiando os instrumentos do Tesouro americano, a China reconhece nossa interdependência. É claro que sairemos ou cairemos juntos - declarou a secretária de Estado.

- Enfrentaremos um aumento de nosso endividamento - acrescentou Clinton, referindo-se à crise econômica em seu país.

- Não é do interesse da China que nós não sejamos capazes de reativar nossa economia - afirmou, destacando que os dois países estão irreversivelmente ligados.

Os investimentos chineses em bônus do Tesouro americano são vitais para a aplicação, nos Estados Unidos, do gigantesco plano de reativação econômica, de 787 bilhões de dólares.

A China, por sua vez, precisa da demanda do mercado americano, agora que as exportações, principal motor de seu crescimento, caíram fortemente em decorrência da crise.

Em setembro, a China passou a ocupar o lugar do Japão como maior credor dos EUA, com 696 bilhões de dólares em bônus do Tesouro em dezembro.

No sábado, Clinton se encontrou com o presidente chinês, Hu Jintao, e com o primeiro-ministro, Wen Jiabao. Washington e Pequim insistiram em sua vontade mútua de cooperar para reverter a crise econômica e as mudanças climáticas - os dois países são os maiores poluidores do mundo.

Antes de chegar a Pequim, Clinton afirmou que a administração de Barack Obama não pretende pressionar Pequim sobre a questão dos direitos humanos neste momento, para evitar que a discussão de outros temas seja bloqueada.

- Temos que continuar pressionando - ponderou Clinton em Seul, pouco antes de embarcar para a China, "mas nossas pressões não podem interferir na crise econômica mundial, na crise do aquecimento global e na crise da segurança".

Suas declarações causaram indignação em grupos de defesa dos direitos humanos em todo o mundo, como a Anistia Internacional, que disse estar "extremamente decepcionada" com a postura da secretária de Obama.

- Os Estados Unidos são um dos poucos países que podem influenciar a China de maneira significativa em questões de direitos humanos - estimou T. Kumar, diretor para a Ásia da Anistia Internacional dos EUA.

- Os defensores chineses dos direitos humanos e a sociedade civil sofrerão ainda mais se a comunidade internacional não prestar atenção suficiente e não pressionar a China o suficiente - estimou Zeng Jinyan, uma das mais conhecidas dissidentes do país, que denunciou ter sido colocada em prisão domiciliar durante a visita de Hillary Clinton.

Outros dissidentes, no entanto, disseram compreender a prudência dos EUA, e se mostraram confiantes de que o reforço das relações bilaterais dê seus frutos no médio e longo prazo.