Um giro pelos Carnavais mais festejados do planeta

Joana Duarte, Jornal do Brasil

VENEZA - O Carnem Levare ou Carnaval adeus à carne , que antecede à Quaresma cristã, não é só coisa nossa. Por meio de rituais pagãos, fantasias e brincadeiras que exageram ou subvertem o comportamento cotidiano, o Carnaval é celebrado em diversas cidades do mundo, e procura aliviar a rigidez das obrigações e as mesmices da vida com muita ironia, disfarce, riso e folia.

Veneza, cidade dos encantamentos e da melancolia, a máscara da Itália , como a chamava o poeta Lord Byron, começou a celebrar o Carnevale na Idade Média, quando suas grandes praças eram tomadas com pompa pela aristocracia, onde se realizavam competições de atletas e performances de atores locais. Atualmente, as celebrações de Carnaval transformaram Veneza, com suas ruas estreitas e gôndolas encantadas, num pandemônio de máscaras e fantasias que reencarnam os costumes da aristocracia do século 18.

Em Porto-de-Espanha, capital da pequena nação caribenha de Trinidade e Tobago, o Carnaval, ou Mas como é chamado pelos locais, foi inicialmente introduzido pelos espanhóis no fim do século 18, mas ganhou ímpeto com a emancipação dos escravos, em 1843, se tornando um rito simbólico de libertação, ritmado pelos famosos tambores de aço inventados na ilha.

Antes da emancipação, escravos eram proibidos de andar nas ruas sem uma licença que provasse que tinham permissão de seus mestres conta Jeffrey Chock, fotógrafo de Trinidade que cobriu os últimos 30 Carnavais na ilha. Ao serem libertados, em 1843, eles se espalharam pelas ruas, tirando proveito do novo direito adquirido.

Chock conta que os Carnavais tradicionais se originaram de conceitos libertários de que tudo é permitido e de que ninguém pertence a ninguém. Mas hoje, lamenta Chock, o festival se tornou a grande marcha dos biquínis . Entristecido, o fotógrafo considera o Carnaval moderno uma anomalia social em que as pessoas antes de tudo procuram aparecer, serem vistas e admiradas.

Acho que por um lado, estamos seguindo o padrão do Carnaval brasileiro diz ele, no sentido de sua transformação em festas exclusivas a que nem todos têm acesso, contrariando a ideia básica de ser uma festa popular. As fantasias estão cada vez mais caras, assim como os ingressos para os camarotes dos desfiles.

Panorama

A Bolívia comemora o Carnaval com enormes festas e a famosa entrada em Oruro, um desfile de danças folclóricas no qual se misturam símbolos católicos e práticas pagãs. Escolas de samba aquecem as festividades na Argentina, e os paraguaios celebram com festas de rua, muita animação e pouca roupa.

No Haiti, o Carnaval remete aos tempos da ditadura da família Duvalier, em uma época em que bandas carnavalescas satirizavam os costumes e estilo de vida luxuoso das elites privilegiadas.

Com a abertura política no país, a sátira carnavalesca se tornou mais aberta e hoje a folia é marcada por canções que satirizam as forças de paz da ONU no país, que por ironia tem a participação ativa das Forcas Armadas do Brasil, ou seja, o país do Carnaval.