Obama adota linha dura com Cabul

Osmar Freitas Jr, Jornal do Brasil

NOVA YORK - A estratégia futura do presidente Barack Obama para o Afeganistão começa a mostrar seus contornos. As linhas aparentes sugerem um quadro assustador para o presidente afegão Hamid Karzai. O slogan Mudança usado pelo atual presidente americano chegou a Cabul. A começar pelas retiradas do apoio irrestrito e do fino trato que o governo local recebia do governo Bush. O novo inquilino da Casa Branca não promete suporte a Karzai nas eleições gerais afegãs no final de outubro. Até lá, uma tropa de 30 mil soldados dos Estados Unidos irá se juntar aos 30 mil presentes no território, cumprindo promessa de intensificação da guerra, feita pelo novo comandante-em-chefe.

A prova mais eloqüente da transformação no relacionamento veio em meados de janeiro, numa viagem ao país feita pelo senador Joe Biden ex-chairman da comissão de Relações Externas do Senado. Antes mesmo de ser empossado como vice-presidente, o visitante defendeu de modo duro um maior combate à corrupção. Não deixou de mencionar também a evidente falha no combate ao tráfico de ópio, no qual está envolvido o meio-irmão de Karzai, Ahmed Wali. Este está livre para participar na produção e exportação de heroína, que traz receita de US$ 4 bilhões e supre 90% do consumo no mundo.

Rússia

O recado foi entendido, mas não provocou a reação esperada. No domingo passado, dia 25, Karzai fez discurso na cerimônia de graduação da Academia Militar afegã, declarando o imponderável: Se os Estados Unidos não nos ajudarem, nós vamos pedir tanques e aviões a outros países , disse o presidente. Por outros países entenda-se a Rússia, que já está em conversações sobre vendas de armamentos, desde novembro passado.

Enquanto Karzai falava aos cadetes, em Washington um quarteto de conterrâneos seus esperava audiência com o presidente Obama. Eram: Gul Sherzai, governador da província de Nangahar; Ashraf Ahmadzai, o ex-ministro das Finanças; Ali Jalali, ex-ministro do interior, e o ex-chaceler Abdullah Abdullah. Todos são aspirantes à Presidência nas próximas eleições, mas vistos como um dream time pelos americanos esperançosos de formar uma coalizão destas forças.

O que o governo Obama começa a demonstrar é uma nova linha de envolvimento no Afeganistão. Ela não inclui Karzai. Deixa-se de lado um projeto tosco de construção do país, que foi mal executado e não daria resultado por causa das rivalidades regionais afegãs. Substitui-se isso por uma tentativa de grande acordo nacional, do qual participariam até mesmo setores do talibã diz o analista Wahid Muzhda, que serviu ao governo Talibã.

Vários estrategistas do Pentágono, do Departamento de Estado e analistas acadêmicos demonstram que este é o rumo a ser seguido pelo governo Obama.

A princípio, o que se desejava era acabar com a capacidade da Al Qaeda de atacar o Ocidente. Isso foi alcançado. O núcleo principal da Al Qaeda não pode se movimentar, sob o risco de ser eliminado. A guerra ao talibã foi subproduto desta ofensiva contra a organização de Osama bin-Laden diz o ex-diplomata Anderson S. Jones, ex-encarregado da região afegã-paquistanesa, do Departamento de Estado e atual conselheiro de política externa do governo Obama. A segurança nacional americana não estará ameaçada se o Talibã voltar a governar o Afeganistão. A não ser que eles voltem a dar refúgio a terroristas. Isso pode ser evitado, por meio de diplomacia e pressões militares inteligentes, como ocorreu no Iraque. Os dois países não são a mesma coisa, mas há como se aplicar uma política semelhante para o povo afegão. Isso tiraria os Estados Unidos da guerra mais duradoura que a nação já enfrentou. É possível aceitar um governo Talibã moderado e voltar para casa.