Diplomata João Clemente Baena diz que Obama dependerá dos democratas

José Aparecido Miguel, Jornal do Brasil

RIO - O embaixador brasileiro João Clemente Baena Soares é uma voz de destaque para comentar assuntos de relações internacionais, como a posse do novo presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, depois da administração do republicano George Bush. Baena tem uma importante carreira diplomática. Foi secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), de 1984 a 1994. Há dois anos, convidado pela Organização das Nações Unidas (ONU), integrou um grupo que foi ao Líbano, depois da guerra com Israel, verificar as condições do país quanto aos direitos humanos e ao direito internacional.

Ele fala sobre o conflito entre Israel e os palestinos, e a mudança de condições do capitalismo diante da crise econômica mundial. Pede aos Estados Unidos maior reconhecimento à importância internacional do Brasil, apoiando-o no objetivo de ser integrante permanente do Conselho de Segurança da ONU. A Amazônia, a água e o papel da China no equilíbrio de poder mundial estão entre outros temas tratados nesta entrevista.

O senhor escreveu o livro Sem medo da diplomacia, apostando que ela é o principal instrumento para a construção de um mundo melhor. Como será o desafio de Obama para reparar a imagem da diplomacia americana, depois do legado turbulento deixado por Bush?

São dois grandes desafios: um externo, a construção da paz; outro interno, a economia. É claro que sempre há uma incidência de um sobre o outro. É preciso construir a paz no Iraque, a paz no Afeganistão, a paz em outros lugares, sobretudo na Palestina.

Como resolver este conflito que se eterniza?

Enquanto não houver a instalação do Estado palestino, que foi criado ao mesmo tempo com o Estado de Israel, eu creio que não haverá como se chegar à paz. Espero que agora haja um cessar-fogo efetivo, aí estaremos tratando de uma paz permanente, segura. O conflito atual representa a vitória dos radicais de lado a lado, impedindo uma negociação diplomática e política. Quem constrói a paz são os moderados. O grande risco é que o conflito se generalize no Oriente Médio. O papel dos Estados Unidos, no caso, é importante, mas eles não são um poder moderador, nem imparcial. Infelizmente, talvez só os meus netos vejam a paz entre israelenses e palestinos, mas os caminhos para a solução estão nas próprias resoluções da ONU. O Estado de Israel não pode continuar sem definir suas fronteiras.

Como avalia a ascensão da China como superpotência?

A China poderá vir a ser o fator de equilíbrio nas relações internacionais. Não me parece que a União Européia tenha o peso suficiente para ocupar esse lugar. Por quê? Porque não se chega a um acordo entre seus membros sobre política de defesa, política externa comum e sobre outros aspectos, ligados à economia, imigração etc. A União Européia cresceu muito e, então, diluiu-se, enquanto a China está seguindo um caminho que pode levá-la a ter uma influência cada vez maior na política internacional, para definir o equilíbrio mundial. Bem, é um exercício de futurologia. O Herman Khan (cientista americano que, à frente do Instituto Hudson, na década de 60, arriscou várias previsões sobre o futuro) escreveu um livro sobre o ano 2000 e nada do que previu deu certo. Além do mais, ele queria criar uma região de grandes lagos na Amazônia. Mas é possível antecipar que o peso específico da China vai crescer no mundo.

Haverá uma nova postura dos Estados Unidos?

Os Estados Unidos vão reavaliar seu poder nacional. Há novos atores, há os países emergentes que estão aí, que podem contribuir na solução da crise econômica. O Conselho de Segurança precisa ter condições importantes para redesenhar a convivência internacional.

Como Barack Obama tratará da questão do terrorismo?

Vai continuar nas grandes linhas de combate ao terrorismo, sem os exageros e sem os excessos que verificamos nos últimos anos. Não é apenas uma questão militar; vai além dos excessos de violência, dos excessos bélicos. É uma questão de profundidade. Não há um terrorismo; há vários terrorismos. Há atos que são inspirados por angústias, por revoltas. Há outros que são quase centenários. É preciso avaliar cada ação dentro de seu contexto histórico, social, econômico e político.

Como fica a questão da soberania dos Estados Unidos e o império do direito internacional?

O direito internacional, como sabemos, limita o poder. Portanto, historicamente é comprovado: os mais poderosos não são aqueles que mais contribuem para a evolução do direito internacional. Sou daqueles que desejam uma sociedade baseada no direito. Que esses poderosos compreendam, por fim, que não há outro caminho para a paz senão por intermédio da vigência do direito internacional.

O que se modifica no mundo com a ascensão dos democratas nos EUA?

Depende do que possa mudar na compreensão que os democratas têm do novo mundo, da nova situação provocada pela crise econômica. Aliás, a história é uma crise permanente, que se acentua ou se atenua, de acordo com as suas condições. Historicamente, os democratas não foram tão pacíficos assim. De um lado, há a Guerra do Vietnã, de outro, a invasão de Cuba, mas eles sempre procuraram estimular e apoiar as soluções multilaterais, uma contribuição positiva. Os republicanos sempre estiveram voltados para dentro e quando se voltaram para fora, deu no que deu... Iraque etc.

Que relação o governo brasileiro pode esperar de Obama?

Espero uma atitude de respeito e de diálogo, um comportamento que leve a acentuar as possibilidades de convergência e a diminuir as de discordâncias, estas, diria, mais no campo comercial. As concordâncias estariam nas contribuições que o Brasil já está em condições de dar para a política internacional, como ator que é, cada vez mais respeitado no mundo. Que o Brasil seja ouvido não só nas questões diretas, bilaterais. O país já demonstrou que tem o que dizer nas questões multilaterais. Espero que o Obama chegue a esta conclusão.

Que relação Obama vai ter com o Mercado Comum do Sul (Mercosul), as exportações, os subsídios para a agricultura dos Estados Unidos?

Falamos de Barack Obama sempre no papel da esperança. Depois da tragédia Bush, até um poste traria esperança. Ele é carismático, sério, pode ser um líder importante. Mas não existe sozinho. Devemos considerar que há o Partido Democrata: Obama não pode ir contra seu partido. E aí começam as dificuldades, as de cunho comercial, as de relações sindicais, as dos poderosos dentro do partido, com a visão deles sobre a América Latina e o Brasil. O Brasil está abrindo novas frentes. Tem todo um esforço científico, tecnológico, industrial. Está trazendo coisas novas para o mundo, como a energia alternativa do etanol. O petróleo agora está em baixa, mas não vai ficar assim e temos as importantes descobertas das reservas no nível do pré-sal. O petróleo não vai acabar tão cedo, mas claro que as fontes alternativas têm que ser estimuladas.

Como os Estados Unidos vão tratar os temas da América Latina, como os recorrentes da Venezuela e da Colômbia?

É uma relação muito difícil para os Estados Unidos. Barack Obama tem a oportunidade de definir alguma coisa nova, ao enfrentar a questão de Cuba, levantando o embargo econômico sobre o país, e acabar com a prisão de Guantánamo. Seriam duas ações que mostrariam algo de novo para a América Latina, que tem o permanente desejo de ser ouvida e compreendida. Há muito tempo se dizia que os americanos fazem tudo pela América Latina, menos ler sobre ela. O primeiro passo é entendê-la. Não achar que é uma coisa só, homogênea. Há também a citação de que o melhor que os Estados Unidos podem fazer é ignorá-la, pois assim a América Latina vai andando... É preciso entender seus países na sua individualidade, na sua história, nos seus problemas, nas angústias de seus povos. Isso faz parte de uma questão estratégica em política externa.

O que significaria hoje um grande avanço nas relações Brasil-Estados Unidos?

Do lado comercial, mais facilidade de acesso dos nossos produtos ao mercado americano, além do reconhecimento do grande avanço brasileiro na área de energia renovável. Do ponto de vista político, um grande passo é reconhecer a importância internacional do Brasil como ator político e, portanto, contribuir com uma reforma do Conselho de Segurança da ONU, trazendo o Brasil para membro permanente deste conselho, apoiá-lo.

Como o senhor vê esta possibilidade?

Há uma distorção enorme no mundo contemporâneo. Nós estamos no século 21 e a estrutura de comando do Conselho vem da Segunda Guerra Mundial. Não é possível que a Europa tenha três representantes permanentes entre cinco países, enquanto as outras regiões que têm importância cada vez mais significativa no mundo não estão representadas. Essa renovação traria uma representatividade maior para o conselho.

Falta legitimidade ao Conselho de Segurança da ONU?

Qual é a legitimidade neste momento? É a legitimidade de países que venceram a Segunda Guerra Mundial em 1945. É um absurdo. Na nova realidade, como ignorar o Brasil? Como ignorar a Índia? Além do mais, a Índia e o Paquistão são potências nucleares. O Brasil não o é porque tomou a decisão de aderir ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (assinado em 1968). Pode ser discutível, mas é uma realidade. A Índia é uma potência nuclear, legitimada e com o endosso dos Estados Unidos, fato que acaba com o Tratado. Desenvolveu a bomba nuclear e foi, nesse ponto, apoiada pelos americanos, que dão assistência ao país. Neste capítulo, o mundo ficou de cabeça para baixo. No caso do Brasil, é preciso dar a ele o tratamento merecido como Estado importante no diálogo internacional.

A crise econômica proporcionará mudanças de condições ao capitalismo?

Já há uma mudança nas condições de existência do capitalismo. Aquela história de cada um por si, Deus por todos, acabou. O Estado volta a ser um elemento importante na defesa das populações, que não são apenas os investidores. Essa coisa de dizer que o Estado, quanto menor, melhor, não é mais verdade. Foi a primeira afirmação destruída pelos fatos. Portanto, o Estado agora estará sempre presente para organizar a vida nacional.

Há outro tema essencial, neste contexto?

É um assunto que pode ser origem de conflitos, atritos e até de violência: a água, que é o petróleo do futuro. Será assunto catalizador de conflitos e de divergências entre países, diante da pressão das próprias populações.

Neste quadro, o Brasil trata de forma eficiente da questão da Amazônia?

Ainda não. Ainda temos muito o que fazer, em dois sentidos. Primeiro, defender o que é nosso. Amazônia é uma casa aberta, um território livre, de onde se extrai o que se quer, em matéria de biodiversidade e de influência sobre populações. Para esta defesa, temos de fazer o nosso trabalho de casa. Também temos de nos defender daqueles brasileiros que estão destruindo e se aproveitando erradamente das riquezas da Amazônia. Mas não é só a Amazônia que deve merecer atenção no assunto da água. Ao lado dos países do Mercosul (Paraguai, Uruguai e Argentina), temos o manancial de água doce subterrânea do Aqüífero Guarani, que atrai muito interesse da comunidade internacional.

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