Bolívia: oposição inicia campanha contra nova Constituição

Jornal do Brasil

LA PAZ - Um dia depois de o presidente da Bolívia, Evo Morales, ameaçar ignorar o Congresso e regulamentar a nova Constituição por decretos, a oposição iniciou uma campanha nacional contra a Carta, insatisfeita porque ela não reconhece a plenitude da demanda de autonomias regionais aprovadas em referendos populares entre maio e junho do ano passado. Morales quer evitar bloqueios da oposição contra a nova regulamentação, que deve ser aprovada em consulta popular no próximo dia 25.

A Constituição dá mais poderes aos indígenas, consolida a estatização econômica e erradica os latifúndios. Mas, para que entre em vigor plenamente, o Congresso precisa aprovar leis complementares. Apesar de minoritária, a oposição consegue retardar ou mesmo impedir a aprovação de vários projetos, especialmente no Senado.

Se querem entrar para a História, acompanhem esta transformação profunda, democrática e cultural para todos os bolivianos disse Morales, dirigindo-se aos parlamentares conservadores.

Pesquisas indicam a vitória do sim à Constituição com pelo menos 60% dos votos. Na segunda-feira, Morales foi reeleito líder do partido Movimento ao Socialismo, em um evento na cidade de Oruro, transmitido ao vivo.

Os governadores opositores Rubén Costas (Santa Cruz), Savina Cuéllar (Chuquisaca), Mario Cossío (Tarija) e Ernesto Suárez (Beni) se reuniram na cidade de Tarija, a 950 km de La Paz, para iniciar uma campanha contra a medida. No encontro, realizado num ginásio esportivo onde se concentravam milhares de pessoas, os líderes fizeram discursos contra o mandatário, a quem acusam de apoiar a Carta por ela permitir uma nova reeleição.

Morales, que irá a uma consulta em dezembro deste ano por um novo mandato até 2014, se aprovada a nova Carta, também disse nos últimos dias que chegou ao poder para ficar por toda a vida , o que desatou críticas opositoras ácidas.

O povo não quer autoritarismo disse Cossío, anfitrião do encontro.

Os opositores pretendem percorrer as cidades de Santa Cruz, Trinidad e Cobija, onde asseguram que darão uma reviravolta em Morales nas urnas. O governo contra-ataca dizendo que os argumentos da oposição não têm sentido, porque a nova Constituição teria um capítulo sobre autonomias e é um ponto fundamental para consolidar as políticas oficiais.

A Carta reconhece todos os componentes da autonomia plena: eleição de um governador e a possibilidade de ele fazer leis na esfera local disse o vice-presidente Alvaro García, que também percorre o país com autoridades fazendo campanha pela nova lei fundamental.