Ataques de Israel dividem opiniões no mundo árabe

Jornal do Brasil

ISRAEL - Os bombardeios israelenses em Gaza agravaram as divisões no mundo árabe entre islamitas de apelo popular e governos autoritários vistos amplamente como colaboradores de Israel e dos EUA. Sobretudo no Egito, as linhas de batalha ficam claríssimas à medida que o partido do governo dá aos islamitas egípcios, aliados do movimento palestino Hamas, conselhos do tipo:

- Se você não gosta do que acontece no Egito, pode ir à Gaza.

Hussein Megawir, membro pró-governo do Congresso egípcio, disse num debate sobre Gaza no sábado:

- Existe um plano iraniano, que envolve o Hamas e alguns integrantes da Irmandade (Muçulmana), para conflagrar a Palestina e o Egito.

A Irmandade Muçulmana, o maior grupo de oposição do país, com um quinto das cadeiras do Parlamento, é um aliado próximo do Hamas, que começou como uma ramificação da irmandade. A irmandade, por sua vez, incentiva árabes e muçulmanos a buscar retaliação contra o silêncio mesquinho e conivente por parte da maioria dos governos e regimes islâmicos e árabes.

Em declarações públicas sobre os bombardeios israelenses, o governo egípcio e seus aliados palestinos no Fatah chegaram perto de dizer que o Hamas é o principal culpado pelos bombardeios que em dois dias mataram mais de 280 pessoas.

O Ministro do Exterior do Egito disse sábado que o país emitiu avisos sobre a possibilidade de uma ofensiva israelense e aqueles que os ignoraram são responsáveis pelas conseqüências. No Cairo, o presidente palestino e líder do Fatah, Mahmoud Abbas, ecoou a declaração, ontem.

- Conversamos com eles (Hamas) e pedimos a eles para 'por favor, não suspender a trégua. Pedi para deixá-la continuar para que pudéssemos evitar o que aconteceu.

O articulista político egípcio Hassan Nafaa escreveu no jornal independente Al Masry Al Yom:

- O Hamas parece ser o inimigo comum do Egito, de Israel e da Autoridade Palestina. Israel e os EUA tiveram êxito em convencer os governos egípcio e saudita de que a maré xiita guiada pelo Irã é a maior ameaça para toda a região, comentou ele.

Em contraste com a culpa colocada pelos árabes conservadores no Hamas, em muitas partes do mundo árabe manifestantes criticaram governos árabes por causa da atitude passiva diante dos bombardeios. Muammar Gaddafi, líder da Líbia, que gosta de desempenhar o papel de consciência da nação árabe, foi mais uma voz a criticar os líderes árabes ontem.

- Esses sujeitos deviam se envergonhar. Estão abrindo mão da causa palestina com suas posições covardes, fracas e derrotistas, disse.

Num protesto em Bagdá, o embaixador palestino Galilal-Qasus afirmou:

- Estamos à espera de ação de líderes árabes, mas agora não queremos nada deles... Apelamos para os líderes árabes por quase 60 anos, mas todos esses esforços foram em vão.

Manifestantes e grupos de oposição exigiram que Egito e Jordânia rompam relações com o Estado judeu e que o Egito abra sua fronteira com Gaza, acabando com o bloqueio imposto na faixa costeira desde a vitória do Hamas nas eleições parlamentares em 2006.