Polícia do Zimbábue enfrenta manifestantes; cólera se espalha

REUTERS

HARARE - A polícia do Zimbábue, armada de cassetetes, enfrentou médicos, enfermeiros e sindicalistas que protestavam nesta quarta-feira, mesmo dia em que a contagem de mortos por uma epidemia de cólera saltou para 565 pessoas.

Os sindicatos convocaram uma manifestação contra a escassez de dinheiro, que vale cada vez menos. Além disso, pelo menos 100 profissionais da área da saúde protestaram por melhores salários e condições de trabalho no mesmo momento em que combatem a pior epidemia de cólera da história do país.

A economia do Zimbábue, que já foi relativamente próspera, entrou em colapso. Além disso, a esperança de uma melhora é frustrada pelas negociações travadas entre o presidente Robert Mugabe e o líder da oposição Morgan Tsvangirai para dividir o poder.

A polícia, armada com cassetetes e escudos, enfrentou um grupo de cerca de 20 manifestantes que marchavam em direção ao banco central.

Em outro ponto da cidade, a polícia dispersou aproximadamente 100 profissionais de saúde que se juntaram do lado de fora do Ministério da Saúde.

Os hospitais públicos estão fechados em sua maioria, devido à falta de remédios e de equipamentos e pelas constantes greves de médicos e enfermeiros por melhores salários. A categoria tem poucas condições de lidar com a epidemia de cólera.

A agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para assuntos humanitários afirmou que o cólera matou 565 pessoas e infectou mais de 12.500 zimbabuanos. Centenas de pessoas foram para a África do Sul em busca de tratamento, aumentando a pressão por um maior envolvimento regional para impedir que o Zimbábue entre em um colapso completo.

O Congresso de Sindicatos do Zimbábue disse que quase 50 sindicalistas, incluindo seu secretário-geral, Wellington Chibebe, foram presos.

Os protestos de quarta-feira acontecem após confrontos inéditos entre soldados e civis, na segunda-feira. Dezenas de soldados desarmados entraram em conflito com uma multidão e com a tropa de choque após apreenderem dinheiro de vendedores e de doleiros ilegais.

O ministro da Defesa, Sydney Sekeramayi, afirmou que foram aplicadas medidas para evitar atos de violência que a mídia estatal atribuiu a "soldados trapaceiros".

Analistas disseram que a falta de coesão dentro das forças de segurança de Mugabe mostra o impacto da crescente instabilidade econômica e pode aumentar a série de problemas enfrentados pelo governo.

- Eu acho que eles têm todos os motivos para ficarem completamente preocupados... Se eles não puderem ter os soldados junto a eles, eles estão com sérios problemas. E se isso acabar em alguma rebelião dos soldados, daí poderíamos ver alguma mudança muito mais rápida no Zimbábue do que parecia há algum tempo - disse Steven Friedman, analista político da Universidade de Johannesburgo.

A contaminação por cólera fora das fronteiras do Zimbábue também pode forçar os países vizinhos a tomar alguma atitude.

A Federação Internacional da Cruz Vermelha afirmou que seis pessoas morreram na África do Sul, com 400 casos reportados.