Ameaçada de sumir do mapa, Maldivas busca nova pátria

Jornal do Brasil

MALE - A República das Maldivas começará a desviar uma porcentagem da verba bilionária que arrecada anualmente com o turismo para comprar uma nova pátria como um seguro contra mudanças climáticas que ameaçam transformar seus 300 mil habitantes em refugiados ambientais. As informações foram divulgadas por Mohamed Nasheed, o primeiro presidente do país a alcançar o cargo em eleições democráticas.

Nasheed, que tomará posse oficialmente nesta terça em Male, capital do país, disse que a cadeia de 1.200 atóis a 500 metros da Índia pode desaparecer sob as ondas se o ritmo atual das alterações climáticas continuar elevando os níveis do mar.

A ONU prevê que, até 2100, os mares poderão subir 59 centímetros devido ao aquecimento global. A maior parte das Maldivas está apenas 15 metros acima do nível do mar. Até mesmo uma pequena elevação inundaria grande parte do arquipélago.

Não podemos fazer nada para reverter as mudanças climáticas sozinhos portanto precisamos comprar terrenos em outro lugar. Trata-se de um seguro para a pior hipótese. Afinal, Israel começou através da compra de terras na Palestina disse Nasheed, conhecido como Anni.

O presidente, ativista de direitos humanos que chegou à Presidência em eleições no mês passado após desapossar Maumoon Abdul Gayoon, o homem que o prendeu diversas vezes, disse que já tinha discutido a idéia com vários outros países, que se mostraram receptivos.

Nasheed disse que considera a Sri Lanka e a Índia como possíveis anfitriões porque dispõem de culturas, culinárias e climas semelhantes. A Austrália também é uma opção por ter grandes quantidades de terras desocupadas.

Não queremos deixar as Maldivas, mas também não queremos ser refugiados ambientais morando em acampamentos durante décadas disse.

Ambientalistas afirmam que o problema levanta a questão dos direitos de cidadãos em caso de desaparecimento da pátria.

É um alerta sem precedentes disse Tom Picken, dirigente responsável por mudanças climáticas internacionais da organização Amigos da Terra. A Maldivas precisam defender a si própria. É uma vítima da mudança climática causada pelos países ricos.

Nasheed garantiu que pretende criar um "fundo soberano de riquezas" dos dólares gerados pela "importação de turistas", da mesma forma que os países árabes o fizeram "exportando petróleo .

O Kuwait pode investir em empresas; nós investiremos em terras.

O presidente de 41 anos é uma estrela ascendente na Ásia, onde é comparado a Nelson Mandela. Antes de tomar posse, o novo líder pediu aos cidadãos das Maldivas para seguirem em frente sem rancor ou vingança um chamado surpreendente, considerando que Nasheed já foi preso 23 vezes, torturado e passou 18 meses em confinamento solitário.

Temos capacidade para remover qualquer um do governo e processá-lo. Mas já perdoei meus carcereiros, os torturadores. Eles estavam seguindo ordens...Peço às pessoas que sigam meu exemplo e deixem o Gayoom envelhecer aqui.

A República das Maldivas é uma das poucas nações muçulmanas que teve uma transição pacífica de autocracia à democracia. O sultanato de Gayoom foi um regime autoritário que manipulava a polícia, o Exército e as cortes e que bania partidos rivais. Flagelações públicas, expulsões para outras ilhas e torturas eram usadas rotineiramente para suprimir a dissidência e o movimento pela democracia.

Gayoom foi "eleito" presidente seis vezes nos últimos 30 anos, mas nunca competiu com um opositor. Porém, a pressão pública aumentou no ano passado forçando-o a aceitar que a democracia era inevitável.