Putin assume como premiê nesta quarta-feira

JB Online

MOSCOU - Vladimir Putin, o novo primeiro-ministro da Rússia, a partir deste 7 de maio, enquanto presidente transformou a Rússia, devolveu-lhe a auto-estima depois de anos de crise e humilhação e uma estabilidade que, no entanto, teve seu preço: a guerra na Chechênia e uma democracia comprometida.

Durante sua presidencia (2000-2008), a Rússia conseguiu um crescimento dinâmico (8% no ano passado), o que tirou em parte o país da encruzilhada vivida com a grave crise financeira de 1998 e do caos dos anos Yeltsin.

Em um país que sofreu o trauma da queda da União Soviética e depois os anos de reformas que, com freqüência para os russos, foram sinônimo de inferno, os anos Putin resultaram sendo algo positivo.

Para alguns, o atual presidente "refundou" o país. Os mais críticos, no entanto, alegam que os avanços são insuficientes.

- Pensávamos que ele se tornaria um Pinochet 'light' - avalia Boris Nemtsov, vice-primeiro-ministro de Boris Yeltsin, agora na oposição.

- Mas não foi assim. Ganhamos um autoritarismo sem modernização do país - acrescenta.

Quando chegou à liderança do Estado russo depois da renúncia de Boris Yeltsin em 31 de dezembro de 1999, Vladimir Putin resumiu em sua mensagem de Ano Novo o conceito de sua política.

- Não haverá vazio de poder. Qualquer tentativa de ultrapassar os limites definidos pela lei, pela Constituição, será reprimido - declarou o ex-tenente-coronel da KGB, nomeado primeiro-ministro alguns meses antes. Já então havia embarcado o país numa guerra contra os rebeldes chechenos, o que deixou milhares de vítimas.

Nos oito anos seguintes, se entregaria de corpo e alma a retomar o controle das repúblicas liberadas da tutela de Moscou durante o caos pós-soviético. Uma política que receberia o nome de "vertical do poder".

Na política estrangeira, sua ligação telefônica para George W. Bush em 11 de setembro de 2001, a primeira de um chefe de Estado ao presidente americano depois dos atentados de Nova York e Washington, permitiu que recuperasse alguma presença no plano internacional, onde era visto como o "carniceiro da Chechênia".

Apesar de seu empenho em se livrar dos "oligarcas", os barões da indústria russa que se sentiam à vontade com o Kremlin da era Yeltsin, o novo "czar" pareceu empreender então uma política "democrática".

Mas a prisão, em outubro de 2003, do empresário mais rico da Rússia, Mikhail Khodorkovski, cujas supostas ambições políticas são consideradas perigosas para o Kremlin, representou um sinal inequívoco de um endurecimento considerável do regime.

O ano de 2004, quando acontece sua reeleição, marca uma virada. A tomada de reféns, a mais mortífera da história, em uma escola de Beslan em setembro (332 mortos, entre eles 186 crianças), se encontra na origem de um novo período de repressão.

O Kremlin suspende a eleição de governadores, que a partir de então são nomeados de fato pelo presidente, e modifica o código eleitoral, tornando mais difícil a eleição de candidatos independentes.

No final de 2004, a revolução pacífica na Ucrânia que varre o candidato pró-ruso da presidência e elege vencedor Viktor Yushchenko, um pró-ocidental, exaspera Putin, que vê nisso uma prova de ingerência estrangeira no que considera sua praia particular.

- É neste momento que Putin empreende seriamente uma virada para o autoritarismo - analisa Maria Lipman, do Centro Carnegie de Moscou.

- Beslan marcou o início das ''reformas'' políticas que prosseguiram em gestão - explicou.

Ante as críticas de Washington e das capitais européias, Putin defende seu vago conceito de "democracia soberana", uma adaptação, segundo ele, da "democracia universal" à realidade russa.

- No Kremlin, se considera que o Estados Unidos utilizam mais a palavra 'democracia' para isolar Putin do que por seu verdadeiro interesse na democracia - escreveu Dimitri Simes, um cientista político russo na revista Foreign Affairs.

- Que recordação deixará Putin? - questiona Lipman. - Isso dependerá em grande parte do que vier depois - responde.