Geração 'baby boom' ameaça detonar economia do Japão

JB Online

TÓQUIO - O ano fiscal que começou no dia 1º de abril no Japão detonará uma bomba-relógio demográfica: a aposentadoria de milhões de japoneses filhos do 'baby boom', a geração que fez deste país um gigante econômico.

A explosão será retardada, mas o Governo estima que a força de trabalho japonesa diminua em onze milhões de trabalhadores, dos 66,5 milhões em 2006 para 55,84 milhões em 2030.

Por isso, ontem foi um 1º de abril diferente ao dos demais anos do Japão, pois com a queda das primeiras pétalas das cerejeiras, começa o ano fiscal amplamente esperado e temido, no qual, um por um, começarão a se aposentar os 'babyboomers'.

A esse efeito se somará uma das menores taxas de natalidade do mundo e uma gestão econômica duvidosa que impõe obstáculos ao Japão há muito tempo: se em 1994 a fatia japonesa da economia global era de 18%, hoje não alcança os 10%.

Tudo começou há seis décadas, com a volta para casa dos soldados que retornavam derrotados de uma guerra que causou estragos tanto na economia como na psique coletiva do Japão.

Esses homens produziram a geração do 'baby boom' entre 1947 e 1949, 8,6 milhões de crianças que, em 2007, completaram 60 anos.

Deles, nada menos que sete milhões, 5% da população japonesa, começarão a se aposentar neste ano fiscal.

Essa geração 'baby boom', conhecida no Japão como 'dankai', foi encarregada de reconstruir e desenvolver um país sem recursos naturais até transformá-lo na segunda maior economia do mundo.

Eles forjaram uma singular organização socioeconômica que entrou em crise precisamente no declínio de seu período de trabalho. A ministra de Política Econômica e Tributária japonesa, Hiroko Ota, admitiu publicamente que o Japão 'já não é uma economia de primeira classe' e na semana passada voltou a alertar para o risco de que as empresas não estejam dividindo seus altos lucros entre os trabalhadores.

A empresa, considerada tradicionalmente uma segunda família, já não fornece a segurança e o acolhimento de antigamente.

Os 'dankai' talvez sejam os últimos a desfrutar de uma aposentadoria que começa com um prêmio que, no Japão, não raro alcança os 20 milhões de ienes (US$ 201 mil).

As pensões substanciosas são precisamente uma das pedras no sapato dos gestores econômicos japoneses.

Estima-se que o repentino encontro com dinheiro e com tempo livre fará dos aposentados um motor inesperado para a economia japonesa, na qual o consumo representa quase 60% do Produto Interno Bruto (PIB).

Novos produtos como celulares com telas maiores ou serviços destinados à terceira idade impulsionarão a riqueza do país em 0,6% durante os próximos cinco anos, segundo um estudo da empresa de consultoria japonesa Dentsu.

O jornal 'Asahi Shimbun' informou na segunda-feira que as vendas de trailers para acampamento, que permitem, inclusive, o transporte de animais de estimação, aumentaram em 2007 pelo terceiro ano consecutivo.

E, além de seu consumo animador, está seu amor pelo trabalho.

Segundo a Dentsu, 29% dos novos aposentados japoneses vão querer empregar seu tempo para contribuir com seu esforço para a sociedade.

No entanto, embora muitos dos 'dankai' continuem trabalhando, a taxa de natalidade quase não supera o 1,1 filhos por mulher.

Por isso, estima-se que a população japonesa, que agora conta com 127 milhões de pessoas, diminuirá para 100 milhões em 2050, com uma média de idade de 55 anos. A aposentadoria dos filhos do 'baby boom' implica ainda em uma perda inestimável de conhecimento, dificilmente substituível por novas gerações desmotivadas.A única solução viável para a segunda economia do mundo parece ser abrir as portas à imigração, uma decisão improvável para as conservadoras elites políticas japonesas.