Governo chinês diz que mais de 660 rebeldes se entregaram à polícia

JB Online

PEQUIM - O Governo chinês anunciou que mais de 660 participantes das revoltas do Tibete e províncias vizinhas 'se entregaram' à Polícia e poderão ser condenados a penas de 10 anos de detenção à prisão perpétua, ou até à morte, de acordo com o código penal chinês.

Segundo a agência estatal 'Xinhua', as autoridades de Lhasa anunciaram que 280 causadores dos distúrbios de 14 de março se entregaram. De acordo com fontes oficiais, 19 pessoas morreram nos conflitos.

Além delas, 381 pessoas supostamente se entregaram na província de Sichuan, vizinha ao Tibete e também com grandes núcleos de população tibetana.

O paradeiro delas é desconhecido, já que o Governo chinês não divulgou seu destino, embora provavelmente devam estar em centros de detenção para ser interrogados.

Nos dias mais tensos do conflito, Pequim tinha prometido "clemência' a quem se rendesse e ameaçou com maior dureza os que não se entregassem às autoridades.

O código penal chinês estabelece que o incêndio ou destruição deliberada de propriedades com grandes perdas econômicas ou humanas pode ser punido com penas de 10 anos de detenção à prisão perpétua, ou mesmo com a pena de morte nos casos mais graves.

Segundo o chefe do Partido Comunista na localidade, Shu Tao, alguns dos que se entregaram são monges 'que foram enganados ou coagidos'.

A 'Xinhua' afirmou que foram emitidos mandados de busca de outros 29 participantes dos atos de vandalismo, e foi divulgada uma lista de outras 53 pessoas envolvidas nos fatos.

Enquanto isso, um grupo de jornalistas estrangeiros de 19 meios de comunicação chegou hoje a Lhasa vindo de Pequim, em uma viagem organizada pelas autoridades chinesas, confirmou o Ministério de Assuntos Exteriores do país asiático.

É o primeiro grupo de repórteres cuja entrada no Tibete é permitida para investigar os incidentes violentos de 14 de março em Lhasa, que ainda não foram esclarecidos, já que a propaganda chinesa e a tibetana se contradizem na descrição do ocorrido.

A China afirma que multidões violentas atacaram lojas, escolas e outros negócios e mataram 18 civis e um policial, enquanto os tibetanos no exílio falam em 140 mortos devido à repressão policial de manifestações pacíficas.

As autoridades chinesas organizaram encontros com atingidos pelos distúrbios, além de visitas a edifícios incendiados ou saqueados.

Cabe destacar que é a primeira vez que a China organiza uma viagem a uma área atingida por fortes conflitos sociais.

O habitual é que a Polícia chinesa impeça, inclusive com violência, o acesso de repórteres estrangeiros aos locais com manifestações, greves e ataques das autoridades sobre civis.

A cada ano dezenas de milhares de incidentes como estes ocorrem em todo o país, admite o próprio Governo chinês.

A imprensa chinesa se queixou nos últimos dias de que os meios de comunicação estrangeiros só dão atenção à versão do exílio tibetano da cobertura dos incidentes do Tibete.

Um artigo da 'Xinhua' chamava alguns ocidentais de 'arrogantes', e lamentava que 'não importa o que a imprensa chinesa diga sobre as atrocidades dos arruaceiros de Lhasa: eles já têm em mente uma manchete, no qual a autoridade pública é má e os que protestam são vulneráveis'.

O jornal 'China Daily' assegurou hoje que o mal-estar se estende a vários grupos de chineses afastados do Governo, como os milhares de jovens do país que estudam no exterior, e destacou iniciativas deles para enfrentar o que consideram 'hegemonia' da visão ocidental dos fatos.

Cita, por exemplo, a criação por parte de alguns estudantes chineses no exterior do site 'Anti-CNN' (www.anti-cnn.com), na qual colocam fotos e outras provas, segundo eles, da parcialidade dos meios estrangeiros.

Enquanto isso, outros jovens chineses no Reino Unido pediram à comunidade estudantil da China no país europeu que se unam e enviem cada um uma carta ao primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, pedindo a ele que cancele seus planos de se reunir com o Dalai Lama.

A China acusou várias vezes o Dalai Lama de dirigir os atos violentos, enquanto o líder religioso - prêmio Nobel da Paz em 1989 - pediu o fim da violência por parte de todos os grupos, mas aproveitou para acusar Pequim de cometer um 'genocídio cultural' no Tibete