Começa júri de idosas que teriam matado mendigos

Agência EFE

LOS ANGELES - Duas septuagenárias poderão terminar seus dias atrás das grades pelo assassinato de dois mendigos para os quais contrataram seguros de vida, uma história escabrosa e incomum que chamou a atenção de Hollywood.

No julgamento que começou hoje em Los Angeles, as duas idosas, de 77 e 75 anos, compraram seguros de vida para dois sem-teto que, depois, foram encontrados mortos por atropelamento, o que poderia levá-las à prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional.

No julgamento, as senhoras poderão usar sua avançada idade para ganhar a simpatia do júri com uma imagem de desamparo e fragilidade, mas a Procuradoria tem uma opinião bem contrária sobre estas duas septuagenárias.

O Ministério Público tentará provar que Helen Golay, 77 anos, e Olga Rutterschmidt, 75 anos, conspiraram para matar os dois moradores de rua com a única intenção de receber as apólices, que valiam em torno de US$ 3 milhões.

A acusação decidiu, no ano passado, não pedir a pena de morte para as supostas assassinas porque, devido ao funcionamento do sistema judiciário, as apelações poderiam adiar sua execução durante dez anos. Com sua avançada idade, existe a possibilidade de que as mulheres morram na cadeia sem que o caso seja resolvido.

Os analistas afirmaram que sua condição de idosas será um trunfo utilizado pela defesa para conquistar a simpatia e a compreensão dos membros do júri, algo do que a acusação tem consciência.

"Não é a idade o que importa, é o que fazem, e nós tentaremos mostrar à corte suas ações", explicou Sandi Gibbons, porta-voz da Procuradoria, justificando que há antecedentes de idosos declarados culpados por homicídio.

A defesa, por sua parte, apostará no veredicto de inocência para as duas mulheres, que já foram comparadas com as protagonistas de "Este Mundo é um Hospício (1944)", comédia na qual Cary Grant descobria, com horror, o estranho hábito de suas tias de envenenar idosos como um ato de caridade.

A única diferença é que, neste caso, as duas mulheres "cometeram assassinatos brutais, movidos pela avareza pura e simples", disse Shellie Samuels, do Condado de Los Angeles, quando o caso se tornou público.

A versão da acusação é que as duas senhoras se tornaram amigas dos mendigos, hospedando-os em seu apartamento, e contrataram um serviço de segurança para vigiá-los antes de preparar os crimes.

Roger Diamond, advogado de Helen Golay, afirmou que baseará sua argumentação em provas contundentes que demonstrarão que nem os assassinatos sequer teriam ocorrido.

Os moradores de rua, Paul Vados, 73 anos, e Kenneth McDavid, de 50 anos, morreram em 1999 e 2005, respectivamente, por atropelamento. No momento de sua morte, a vida de Vados estava protegida por mais de 12 apólices de seguros, enquanto McDavid tinha 23.

Após as mortes, as idosas reivindicaram os corpos dos mendigos com o pretexto de serem seus parentes mais próximos e cobraram as apólices das seguradoras, segundo as autoridades que investigam o crime.

A acusação tentará provar que Vados e McDavid não foram atropelados acidentalmente, porque os ferimentos presentes nos corpos indicavam que ambos estavam caídos antes de serem atingidos pelo veículo, e não tinham os sinais dos golpes próprios de uma colisão desse tipo.

A trama criminosa supostamente elaborada pelas idosas vai além. Segundo a versão da Procuradoria, as mulheres utilizaram um nome falso para comprar um automóvel Mercury Sabre, no qual foram encontrados vestígios de DNA de McDavid.

Além disso, a acusação apresentará fotografias da casa de Golay, onde foram descobertos frascos vazios de medicamentos controlados e que correspondem à combinação de remédios e álcool que foi detectada no sangue de McDavid.

Outra prova que será utilizada no julgamento é uma gravação obtida pela polícia após a detenção das septuagenárias, na qual Olga criticava Helen. "Por que contratou todos esses seguros extra? Você é mesquinha, esse é o problema", teria dito Olga, de acordo com a gravação.

O advogado de defesa de Golay anunciou que buscará invalidar a gravação como prova por causa de um erro no procedimento da detenção das mulheres pelo FBI. McDavid e Vados não teriam sido os únicos moradores de rua para quem as idosas quiseram pagar um seguro de vida.

Após suas prisões em 2006, a polícia localizou outros três homens que afirmaram que as mulheres se ofereceram para pagar a eles uma apólice em caso de morte. Todos eles continuam vivos.