Morales pede apoio da Igreja em diálogo com a oposição

Agência EFE

LA PAZ - O presidente da Bolívia, Evo Morales, pediu nesta sexta-feira que a Igreja Católica o ajude a solucionar o atual conflito com a oposição, ao passo que seu vice, Álvaro García Linera, suspendeu a sessão em que os congressistas tentariam buscar uma saída parlamentar para a crise.

Nesta sexta-feira, Morales surpreendeu ao viajar até a cidade de Santa Cruz, no leste do país, para se reunir com o cardeal Julio Terrazas e sondar sua possível participação no diálogo com a oposição.

O secretário da Conferência Episcopal Boliviana (CEB), Jesús Juárez, confirmou que Morales e Terrazas, a máxima autoridade da Igreja Católica no país, conversaram por três horas.

Segundo Juárez, 'a Igreja Católica não fala de mediação, mas de facilitação' do diálogo entre o Governo e a oposição, que brigam por causa do projeto constitucional do presidente e da autonomia que quatro departamentos (estados) dominados pelos opositores reivindicam.

- É preciso muito desprendimento e muito espírito para ouvir, muito espírito de abertura, e olhar a totalidade do país e buscar o bem comum para todos - disse Juárez.

Ontem, a Igreja apresentou um documento no qual pede um 'pacto social' e critica tanto o projeto constitucional do Governo como a autonomia pedida pela oposição de Santa Cruz, Beni, Pando e Tarija.

O ministro da Defesa, Walker San Miguel, que acompanhou Morales na reunião com Terrazas, declarou que o processo de diálogo 'não deve demorar muito', mas que também é preciso esperar o debate no Congresso.

No entanto, García Linera decidiu suspender a sessão que tinha convocado para discutir a complicada situação do país, apesar do quorum regulamentar de senadores e deputados.

A sessão ia debater a decisão da Corte Nacional Eleitoral (CNE) de deixar em suspenso os dois referendos convocados por Morales para validar seu projeto constitucional, inicialmente marcados para 4 de maio, mas também abordaria os referendos sobre a criação de regiões autônomas.

A expectativa era de que o debate seria 'acalorado', já que a oposição também tinha antecipado seu protesto contra a escandalosa sessão de 28 de fevereiro, na qual o partido de Morales aprovou os referendos constitucionais num Congresso cercado por sindicalistas pró-Governo.

Ao anunciar o cancelamento da sessão desta sexta-feira, com o argumentou de que a medida visava 'contribuir' com os esforços de Morales para conseguir o apoio da igreja, García Linera irritou os opositores, que tinham levado até megafones para o debate previsto.

Ao abandonar o plenário, o vice-presidente foi vaiado e insultado pelos congressistas do Poder Democrático e Social (Podemos), da direita boliviana.

O senador do governista Movimento Ao Socialismo (MAS) Félix Rojas disse que o 'ambiente' no plenário ficou 'muito tenso' para um "diálogo construtivo'. O legislador também admitiu que chegou a pensar que os megafones levados pelos opositores seriam usados 'numa disputa física'.

Por sua vez, a líder dos deputados do Podemos, Lourdes Millares, chamou García Linera de 'covarde' e acusou-o de ter 'medo de um confronto de idéias'.

Por sua vez, o ex-presidente Jorge Quiroga (2001-2002), que comanda o Podemos, aceitou a possibilidade de a Igreja intermediar o conflito.

Quiroga disse que aguardará o cardeal marcar um dia e uma hora para apresentar propostas 'que garantam a unidade e permitam a reconstrução da economia do país'.