Raúl terá que se equilibrar entre reforma e lealdade à revolução

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HAVANA - O novo presidente de Cuba, Raúl Castro, terá de encontrar o delicado equilíbrio entre melhorar as condições de vida da população e manter-se fiel aos ideais comunistas da revolução comandada por seu irmão Fidel.

Raúl foi eleito presidente neste domingo pelo Parlamento, e muitos apostam que ele está disposto a realizar reformas econômicas limitadas para resolver problemas como a escassez crônica de alimentos e de outros gêneros essenciais.

O general de 76 anos, que já governava interinamente a ilha desde o afastamento de Fidel por motivos de saúde, em julho de 2006, já prometeu a remoção de algumas 'proibições menores'. Reformas que, mesmo tímidas, podem demorar bastante a serem aprovadas.

E Fidel, de 81 anos mantém enorme influência na ilha que governou durante 49 anos.

-Fidel é Fidel. Fidel é insubstituível - disse o irmão caçula na posse, prometendo consultá-lo constantemente e não se desviar dos ideais socialistas.

Um veterano revolucionário, José Ramón Machado Ventura, foi eleito primeiro-vice-presidente, o que na prática o coloca como segundo homem do regime a partir de agora.

Para os 11 milhões de cubanos, praticamente nada muda em curto prazo -- apesar de a maioria nunca ter vivido sob outro líder que não fosse Fidel.

-Minha sensação é de que Raúl vai fazer algumas reformas modestas no futuro próximo - disse Archibald Ritter, especialista em Cuba, da Universidade Carleton, em Ottawa (Canadá).

Ele defendeu o fim de restrições a pequenos empreendedores, como mecânicos, pescadores e artesãos.

-O impacto seria benéfico. Acho que haveria uma rápida recompensa - disse ele numa conferência em Miami, antes da confirmação de Raúl como presidente.

Ministro da Defesa durante décadas, responsável no passado pela execução de inimigos da revolução, Raúl, em sua interinidade como presidente, estimulou o debate sobre os problemas do país. A maioria das queixas foi sobre a situação da economia, que é controlada em 90% pelo Estado.

Ao sinalizar reformas e aceitar as discussões, Raúl criou expectativas dentro de Cuba.

-Ele abriu uma caixa de Pandora - disse o professor cubano Carmelo Mesa-Largo, que dá aulas na Universidade de Pittsburgh (EUA). - Se ele apenas introduzir mudanças marginais, cosméticas, a frustração das pessoas vai aumentar.'

Tampouco deve haver mudanças radicais nas questões internacionais, embora Raúl se diga aberto a conversar com os EUA. Nesse caso, parte de Washington a relutância em suspender o embargo econômico em vigor desde 1962.

O primeiro compromisso internacional de Raúl como presidente será receber, nesta segunda-feira, o secretário de Estado (espécie de primeiro-ministro) do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, que faz visita a Cuba.

A Igreja é a única instituição importante em Cuba que não é controlada pelo Estado. Analistas dizem que ela deve ter um papel social importante numa eventual transição de regimes.