Kufuor chega ao Quênia para negociações entre Governo e oposição

Agência EFE

NAIRÓBI - O presidente temporário da União Africana (UA), John Kufuor, chegou hoje a Nairóbi para liderar uma gestão de mediação que tem como objetivo encerrar a grave crise no Quênia, que nos últimos dias já causou a morte de mais de 500 pessoas.

Kufuor, que também é presidente de Gana, chegou ao Quênia para mediar as negociações entre o presidente queniano, Mwai Kibaki, e o líder da oposição, Raila Odinga, que assegura ser o vencedor legítimo das eleições realizadas em 27 de dezembro.

Com quase uma semana de atraso em relação à data inicialmente anunciada, Kufuor pisou em solo queniano às 17h37 local (13h37 de Brasília) e foi recebido por Kibaki com honras militares.

Ambos trocaram saudações amistosas, apesar de Kibaki ter rejeitado a entrada de Kufuor no país por duas vezes, alegando que o Quênia não estava 'em estado de guerra' e nem precisava 'de ajuda externa'.

Os dois chefes de Estado não realizaram discursos ou declarações aos jornalistas que esperavam pela chegada de Kufuor.

A chegada do mediador, proposto pela comunidade internacional e aceito por Odinga, coincidiu com o anúncio por parte do Executivo queniano da nomeação do ex-candidato presidencial Musyoka Kalonzo como novo vice-presidente do país.

Kalonzo é o líder do Movimento Democrático Laranja do Quênia (ODM-K) e terminou as eleições presidenciais em terceiro.

Os resultados foram denunciados pelo Movimento Democrático Laranja (ODM) de Raila Odinga, e foram postos em dúvida pela União Européia.

A nomeação de Kalonzo para a Vice-Presidência atesta que, apesar das denúncias da oposição, Kibaki mantém seu plano de trabalho e não tem intenção de pôr em dúvida seu mandato.

Em entrevista coletiva concedida de manhã, o líder do ODM afirmou não reconhecer o triunfo de Kibaki, pediu sua saída e revelou à imprensa que não comparecerá ao Palácio Presidencial na sexta-feira para negociar com o presidente eleito, após ter sido convidado pelo governante.

- Ao contrário do que foi publicado na imprensa nacional, não aceitei o convite de Kibaki, pois se trata de uma artimanha para perder mais tempo e desviar a atenção do que realmente está ocorrendo no país - assegurou Odinga.

Os ajustes de contas entre seguidores de Kibaki e Odinga, assim como os numerosos enfrentamentos com a Polícia, provocaram a morte de mais de 500 pessoas e o deslocamento de outras 200 mil, segundo fontes oficiais e das Nações Unidas.

O líder do ODM negou que se trate de um problema tribal, e atribuiu a onda de violência ao estado de ânimo da população após as eleições.

- A violência que se propagou é a conseqüência da ira do povo, que se sente enganado - afirmou Odinga.

Também ratificou seu discurso contra Kibaki, assegurando que a Polícia orquestrou massacres coletivos por ordem do Governo, especialmente na cidade de Kisumu, a terceira mais importante do país, e onde a votação foi favorável à oposição.

Odinga acrescentou que estava disposto a negociar com o Governo e que esperava muito da intervenção de Kufuor.

- Temos provas indubitáveis de que em pelo menos 47 dos 210 distritos eleitorais foram registradas irregularidades que facilitaram a vitória de Kibaki - garantiu Odinga.

O líder opositor acrescentou que a Comissão Eleitoral do Quênia publicou uma apuração adulterada na qual Kibaki recebeu pelo menos 471 mil votos fraudulentos.

O ODM revelou à imprensa que estava realizando uma investigação particular e que suas primeiras conclusões não incluíam os demais distritos porque ainda não tinham concluído sua análise.

Enquanto Odinga segue concedendo entrevistas nas quais enumera as declarações de apoio e solidariedade recebidas do exterior e critica duramente o Governo, Kibaki prossegue com sua agenda política.

Hoje, o presidente nomeou alguns ministros, como Uhuru Kenyatta, filho do primeiro chefe de Estado da história do país Jomo Kenyatta.

Kibaki reservou pastas para os membros do ODM que aceitem seu convite para participar em um Governo de união.

Por enquanto, no entanto, o Quênia segue à espera de uma resposta da ODM e do resultado das negociações de Kufuor com Kibaki e Odinga para retornar à sua vida normal.