Bush não lembra de vídeos com suspeitos de terrorismo

Agência AFP

WASHINGTON - O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, não se lembra de ter sido informado sobre a existência ou sobre a destruição de vídeos de interrogatórios de supostos terroristas, informou a Casa Branca nesta sexta-feira.

Bush "não se lembra de ter sido informado da existência destas fitas ou de sua destruição antes do dia de ontem", quando foi informado pelo diretor da CIA, o general Michael Hayden, declarou à imprensa a porta-voz da Casa Branca, Dana Perino.

Líderes democratas pediram nesta sexta-feira que o Departamento de Justiça investigue se a CIA violou a lei ao destruir os vídeos dos interrogatórios.

O senador Richard Durbin enviou uma carta ao promotor geral Michael Mukasey pedindo que determine se os funcionários da CIA retiveram ilegalmente informação sobre a existência dos vídeos.

- O que está em jogo aqui é o respeito à lei e à justiça nos Estados Unidos - disse Durbine no Senado.

Legisladores democratas e organizações defensoras dos direitos humanos denunciaram nesta sexta-feira a destruição de fitas de vídeo de interrogatórios da CIA a membros da Al-Qaeda, e exigem uma profunda e aberta investigação por possível obstrução da justiça.

O diretor da CIA, Michael Hayden, admitiu na quinta-feira que seus serviços haviam destruído em 2005 vários vídeos de interrogatórios sensíveis, entre outras razões para proteger os agentes que participaram das sessões de eventuais represálias da Al Qaeda.

Esta decisão constitui crime de "obstrução da justiça e ocultamento de provas", denunciou a Anistia Internacional em um comunicado, no qual lembra que, segudo vários testemunhos, os prisioneiros da CIA foram submetidos a técnicas de interrogatório que poderiam ser consoderadas tortura.

"Se as fitas continham provas de condutas criminosas, os envolvidos deveriam ser expostos às demandas penais", insistiu a Anistia.

"A destruição dessas fitas parece fazer parte de um contexto global no qual o Executivo usa seu poder para evitar que alguns indivíduos sejam penalmente responsabilizados por tortura e maus tratos", denunciou a poderosa organização de defesa das liberdades civis ACLU.

O departamento de Justiça não respondeu às perguntas sobre a eventual abertura de uma investigação.

"Os Estados Unidos, país onde o Estado de direito é venerado, se ocupa agora de destruir provas, provas de natureza particularmente sensível, provas que deveriam ser preservadas para a justiça e para a história", se queixou o senador democrata Dick Durbin.

Segundo Carl Levin, influente senador democrata, a idéia de que os vídeos tenham sido destruídos para proteger os agentes é "uma desculpa patética".

- Com essa teoria, teríamos que queimar todos os documentos da CIA nos quais aparece a identidade de um agente. É claro que devemos proteger a identidade dos agentes (mas) isso pode ser feito sem destruir documentos - afirmou.

- Este último episódio é muito preocupante, e se insere em um procedimento que temos visto regularmente na administração - declarou Patrick Leahy, presidente democrata da comissão de Assuntos Judiciais do Senado.

Na quinta-feira, legisladores americanos aprovaram um texto propondo impor a todas as autoridades do país, incluindo aos agentes da inteligência, a sujeição às mesmas regras dos militares e renunciar a qualquer forma de tortura. O texto ainda deve ser aprovado pela Câmara de Representantes e pelo Senado.