Sentimento de exclusão de países árabes pode comprometer Conferência

Agência Brasil

BRASÍLIA - Os palestinos não são os únicos que não se sentem representados na Conferência de Paz para o Oriente Médio. O descompasso se estende a outros países do mundo árabe, pondo em risco a efetividade de encontros como o promovido por George W. Bush.

- Existe um problema geral na relação entre governo e sociedade no Oriente Médio. Nesses encontros, quem está representando os países árabes, de uma forma geral, não são legítimos diante de suas populações - pondera Reginaldo Nasser, professor de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

- Uma coisa são os governos árabes, outra coisa é a rua árabe. Não podemos nos iludir com a presença de diplomatas de governos ditatoriais e não representativos, como Arábia Saudita, Egito, Síria e Jordânia - ressalta.

Ele destaca que a legitimidade norte-americana junto ao que chama de "rua árabe" tem caído muito por fatores como a presença dos Estados Unidos no Iraque, o que compromete a intermediação do país em um eventual acordo entre Palestina e Israel.

Outro fator que compromete a Conferência de Annapolis, na avaliação de Nasser, é a ausência do Irã - potência regional com grande influência na geopolítica do Oriente Médio.

- Depois do 11 de setembro, o país que mais cresceu em importância no Oriente Médio foi o Irã. Sua ausência também minimiza a importância do acordo entre Israel e Palestina. A presença do Irã seria fundamental - ressalta.

Ainda assim, o professor considera importante a iniciativa norte-americana e lembra que o país tem sido, tradicionalmente, o intermediador de encontros de paz na região. Em 1978, o ex-presidente norte-americano Jimmy Carter promoveu acordos entre Israel e Egito - tais acordos foram negociados na casa de campo do presidente dos EUA, em Camp David, pelo então presidente do Egito Anwar Sadat e pelo primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin.

Mais de uma década depois, em 1993, Bill Clinton patrocinou encontro entre o líder palestino Yasser Arafat e o primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin, que resultou nos acordos de paz de Oslo. Novo encontro entre Palestina e Israel foi promovido também por Clinton em 2000, desta vez, sem sucesso.

- Esse encontro [promovido por Bush] viria na seqüência, o único ator internacional capaz de fazer isso são os Estados Unidos - afirma.

Desde o atentado de 11 de setembro, porém, os norte-americanos não mais intermediaram o processo de paz. A Conferência de Annapolis não se realiza agora por mero acaso. No ano passado os republicanos perderam a maioria no Congresso americano para os democratas. Em 2009 haverá eleições presidenciais e Bush tenta recuperar espaço.

- Passamos um bom tempo sem nenhuma iniciativa por parte dos Estados Unidos e a conferência acontece justamente agora. Não há dúvida alguma [de] que isso tem uma relação direta com as eleições nos Estados Unidos. Patrocinar um encontro sobre Oriente Médio, patrocinando a paz, é sempre bem-vindo para a sociedade americana - avalia Nasser.