Primeiro-ministro da Somália renuncia após disputas internas

Agência EFE

MOGADÍSCIO - O primeiro-ministro da Somália, Ali Muhammad Ghedi, anunciou nesta segunda-feira sua renúncia ao cargo, caindo frente às disputas internas que mantinha há semanas com o presidente do país, Abdulahi Yusuf Ahmed.

A decisão anunciada por Ghedi diante do Parlamento somali dá origem a novas dúvidas sobre o futuro político deste país africano, que vive em uma situação caótica desde que o ditador Mohammed Siad Barre foi derrubado em 1991.

- Começa uma nova época na vida política somali: decidi abandonar o cargo em virtude do interesse púbico, motivo pelo qual apresentei minha renúncia ao presidente - anunciou Ghedi, afirmando que continuará sendo membro do Parlamento.

Ali Muhammad Ghedi, que assumiu como primeiro-ministro em novembro de 2004 - quando os dirigentes políticos somalis estavam exilados no Quênia - apresentou sua renúncia pouco depois de chegar a Baidoa, sede provisória do Governo somali, a noroeste da capital Mogadíscio (sul).

O agora ex-primeiro-ministro veio procedente de Adis Abeba, capital etíope, onde se reuniu com representantes oficiais do país vizinho para tentar apoio do Governo local.

No entanto, ao voltar hoje, Ghedi foi acompanhado de dois chefes militares etíopes para assegurar que renunciaria ao cargo, segundo fontes presidenciais disseram à agência Efe.

A Etiópia apóia o Governo do presidente Ahmed, tendo enviado em dezembro passado milhares de soldados para combater os milicianos islâmicos somalis.

Ahmed aceitou a renúncia do primeiro-ministro e encorajou os líderes políticos a superarem as diferenças existentes: 'desejo que, a partir de agora, as instituições esqueçam suas rivalidades e colaborem', disse o governante.

O presidente disse ao Parlamento que nomeará um novo primeiro-ministro, após consultas a líderes políticos, em até 30 dias.

A renúncia ocorre após várias semanas de conflitos internos entre o chefe do Governo e a Presidência, o que gerou divisões entre as autoridades e pôs em risco as eleições planejadas para 2009.

As diferenças explodiram publicamente depois de Ahmed assinar um convênio com uma empresa chinesa para explorar petróleo na Somália, enquanto Ghedi estava inclinado a dar a licença para um consórcio formado por companhias de Indonésia e Kuwait.

As rivalidades se intensificaram quando o chefe da Corte Suprema somali, Youssef Ali Harun, foi preso em 20 de setembro deste ano sob acusações de corrupção, uma decisão apoiada pelo presidente e à qual o primeiro-ministro se opunha.

Ghedi, de 53 anos, pertence ao clã Hawiye, o mais importante de Mogadíscio, enquanto o presidente Ahmed é do clã Darod, originário do norte do país.

Ali Muhammad Ghedi foi funcionário da Organização para a Unidade Africana (OUA), antecessora da atual União Africana (UA), e era pouco conhecido na vida política da Somália até ter sido designado para o cargo de primeiro-ministro.

Durante sua gestão, a mais séria em mais de 15 anos na Somália, Ghedi teve que lidar com as lutas entre os diferentes clãs e também com a ofensiva dos milicianos islâmicos.

Os combatentes islamitas chegaram a ocupar Mogadíscio e diversas regiões do sul do país durante seis meses, até terem sido expulsos pelos soldados etíopes.

Ao saber da renúncia, o presidente da União das Cortes Islâmicas somali, Sheikh Sharif Sheikh Ahmed, qualificou Ghedi como um "criminoso' que se manteve no poder graças ao apoio das 'forças invasoras' da Etiópia.

"Agora é a Etiópia que pede a ele para renunciar', acrescentou.

Enquanto isso, a renúncia de Ghedi não foi vista com maus olhos nas ruas de Mogadíscio.

- Devem existir novas caras para lutar contra a violência - afirmou Mursal Qulle Omar, morador da capital.