Argentinos apostaram na continuidade do modelo Kirchner

Agência EFE

BUENOS AIRES - Os argentinos apostaram na continuidade do modelo do presidente Néstor Kirchner com uma votação amplamente favorável neste domingo à primeira-dama, Cristina Fernández, que será a segunda mulher a exercer o cargo de presidente na história de seu país.

Cristina, de 54 anos, soma 44,66% dos votos com 94,16% das urnas apuradas, o que significa uma vantagem de mais de 20 pontos percentuais sobre o segundo candidato mais votado, o que torna desnecessária a realização de um segundo turno, segundo dados oficiais provisórios divulgados hoje.

Em segundo lugar ficou a centro-esquerdista Elisa Carrió, da Coalizão Cívica, com 23,8% dos votos, e em terceiro o centro-progressista e ex-ministro da Economia Roberto Lavagna, da frente Uma Nação Avançada (UNA), com 16,98%.

Com essa percentagem, a primeira-dama obteve quase o dobro do número de votos conquistados por seu marido nas eleições de 2003.

No entanto, não conseguiu bom desempenho nos grandes centros urbanos da Argentina, segundo os resultados oficiais provisórios.

Na capital, a ganhadora foi Elisa, com vantagem de 10 pontos percentuais sobre Cristina, e em outras grandes cidades como Córdoba, Rosário, Mar del Plata e Bahía Blanca, a primeira-dama e senadora também foi superada por outros candidatos.

Mas a Frente para a Vitória, coalizão de Cristina, obteve uma clara vitória nas eleições para governador da província de Buenos Aires, onde seu candidato, o até agora vice-presidente do país, Daniel Scioli, conquistou quase 50% dos sufrágios.

Além de escolher o presidente e o vice-presidente do país para os próximos quatro anos, os argentinos foram às urnas neste domingo para renovar metade da Câmara dos Deputados e um terço do Senado, e os eleitores de oito províncias também puderam escolher seus governadores.

Nas eleições para governador, o 'kirchnerismo' também se saiu vencedor, ainda de acordo com resultados provisórios.

A Frente para a Vitória triunfou nas províncias de Mendoza, Misiones e Salta, até agora governadas por outras forças, e manteve-se no poder em outras cinco.

A contagem dos votos para senador e deputado será mais lenta e complicada, porque o eleitor podia votar de maneira diferente nas presidenciais e legislativas, e nestas últimas misturar candidatos de listas distintas.

Cristina não tratou em nenhum momento da campanha de desvincular-se de seu marido, e tampouco o fez quando proclamou sua vitória.

Acompanhada por Néstor Kirchner, a quem se referiu como seu "amor' e seu 'companheiro de toda a vida', Cristina fez referência ao momento difícil que marcou a ascensão de seu marido à Presidência, e disse que com 'seus acertos e erros' ele demonstrou ser 'um homem profundamente comprometido com seu país e seu povo'.

A candidata, que assumirá em 10 de dezembro o Executivo argentino junto com o vice-presidente, Julio Cobos, convocou todos os argentinos - 'sem ódios nem rancores' - a participar de seu projeto de Governo e revelou sentir-se 'duplamente responsável', por ser presidente e por ser mulher.

Cristina interpretou sua vitória como um apoio à gestão de Néstor, que foi eleito com 22% dos votos e quatro anos depois goza de uma popularidade de 45%.

Segundo o analista político Rosendo Fraga, o ponto positivo do Governo de Néstor Kirchner foi a reconstituição do poder político presidencial, debilitado pela crise de 2001-02, e o fato de o líder também ter conseguido tirar proveito de um período de crescimento econômico.

O negativo é que aumentou o desequilíbrio de poderes em favor do Executivo, que sua política diminuiu a pobreza mas não a desigualdade e que não se alcançou uma plena reinserção no plano internacional, ainda de acordo com Fraga.

Outro analista político, Fabián Perechodnik, acredita que o Governo de Cristina terá uma curta 'lua-de-mel' com o eleitorado, precisamente por ser visto como uma continuidade do de Néstor.

Cristina herdará os problemas que Néstor deixou sem resolver e terá de enfrentá-los mais cedo que tarde, avalia Perechodnik.

Outro analista, Ricardo Rouvier, opina que 'a opinião pública vê uma unidade de conceitos no casal Kirchner, não vê conflitos entre eles', e aposta que Cristina não tolerará um 'modelo de condução bicéfala'.

- Ganhamos amplamente, talvez com a maior diferença entre o partido mais votado e o segundo desde o advento da democracia - sustentou a próxima presidente da Argentina, a primeira mulher eleita nas urnas do país para o cargo.

A primeira presidente da história da Argentina foi María Estela Martínez -'Isabelita' -, que como Cristina, também desempenhava o cargo de primeira-dama até assumir o poder.

Isabelita era vice-presidente e chegou à chefia de Estado com a morte de seu marido, Juan Domingo Perón, em 1974.

Cristina prometeu um 'combate sem descanso contra a pobreza e o desemprego' e avançar na reconstrução da rede social e institucional.

A oposição denunciou irregularidades e até 'fraude' no pleito deste domingo, porque em alguns centros de votação do país faltaram cédulas e listas de candidatos da oposição ao Governo Kirchner, que, por sua vez, considerou que o processo eleitoral foi 'exemplar'.