Iraque fracassa em tentativa de impedir avanço militar turco

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ANCARA - A tentativa de Bagdá de obter um acordo com Ancara para impedir avanços militares na luta contra a guerrilha do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) fracassou neste sábado, e o Exército turco manteve o envio de soldados na região fronteiriça dos dois países, com incursões aéreas no território iraquiano.

A Turquia rejeitou as propostas apresentadas por uma delegação iraquiana de alto nível, que viajou para a capital turca a fim de negociar uma solução para a crise e deixou o país hoje, após um dia e meio de conversas.

Para a Turquia, esta reunião era a última oportunidade do Iraque para evitar que o Exército turco realizasse uma incursão no seu território, mas a condição exigida para isso era que os iraquianos assumissem a responsabilidade de lutar de forma eficaz contra o PKK.

Fontes diplomáticas de Ancara disseram neste sábado à imprensa que não estavam previstas outras reuniões com as autoridades do país vizinho.

O primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, reiterou em Istambul que a decisão sobre a esperada operação além da fronteira só compete ao Governo de Ancara.

Em 17 de outubro, o Parlamento turco permitiu que o Executivo de Erdogan ordenasse a incursão militar no momento e quantas vezes considerasse necessário, uma autorização com validade de um ano.

Erdogan também criticou o mundo ocidental, especialmente as nações européias, pela falta de apoio à luta turca contra o PKK, um grupo considerado terrorista não só pela Turquia, mas também por União Européia (UE) e Estados Unidos.

- Não podemos entender aqueles que classificam uma organização como terrorista e não nos entregam seus membros. Nenhum país europeu fez isso até agora. Isso é uma prova de sinceridade, e nossos amigos ocidentais estão mal no teste - disse o chefe de Governo.

Na noite de sexta-feira, Erdogan considerou desnecessário esperar o seu encontro com o presidente americano, George W. Bush, em 6 de novembro, para decidir sobre um ataque ao norte iraquiano, contrariamente que havia sido declarado pouco antes pelo chefe do Estado-Maior, general Yasar Buyulkanit, a um grupo de jornalistas.

Segundo Erdogan, todos os preparativos para a ofensiva militar estão concluídas e já foram realizados os contatos diplomáticos necessários sobre o assunto.

- Não vamos dar passos para a soberania de outros. Daremos, estamos dando e demos os passos a favor dos nossos interesses e pela paz na região - afirmou o primeiro-ministro.

Ancara considera que é um direito seu entrar no Iraque para combater as bases do PKK, pois os guerrilheiros curdos obtêm apoio logístico no país vizinho, utilizado por eles para a realização de atentados na Turquia.

Segundo a rede de televisão 'CNNTurk', fontes da delegação iraquiana que esteve em Ancara confirmaram que os turcos entregaram "uma lista de 153 pessoas do PKK' cuja captura e extradição exigem.

No entanto, a delegação afirmou que poderá entregar apenas 18 deles ao país.

Hoje foi mantido na região iraquiana o desdobramento de mais de 100 mil militares turcos, iniciado após o massacre de 12 soldados e a captura de oito militares por guerrilheiros do PKK.

De acordo com fontes oficiais, desde então as forças turcas mataram mais de 65 combatentes do PKK e realizaram diversas incursões aéreas no norte do Iraque.

O vice-primeiro-ministro turco, Cemil Cicek, advertiu na sexta-feira que 'as operações do Exército serão ampliadas se a Turquia deixar insatisfeita a mesa de negociações'.

Impedir que o PKK use o solo iraquiano, deter o apoio logístico a essa organização terrorista, impedir que realize qualquer atividade, fechar suas bases, capturar seus líderes e entregá-los à Turquia foram algumas exigências de Ancara.

A agência pró-curda 'Firat News Agency' informou que a artilharia turca bombardeou posições em torno de algumas localidades iraquianas.

- Não houve vítimas nas aldeias, mas a população de algumas localidades começou a emigrar para regiões mais internas - segundo a "Firat News Agency'.

O jornal 'Radikal' informou sobre operações em curso em território turco, em áreas montanhosas do sudeste.

Cerca de 20 mil tropas turcas estavam em alerta máximo em Hakkari, na fronteira com o Iraque.

Segundo a imprensa local, seis pessoas, duas delas membros de guardas paramilitares, foram presas na sexta-feira por passarem informações ao PKK sobre as atividades das forças turcas.

Um alto comando do PKK, Murat Karayilan, anunciou hoje que os oito soldados turcos capturados no domingo poderiam ser libertados em breve, caso o Exército turco interrompesse os bombardeios.