A reunião sobre Darfur começa sem participação dos rebeldes

Agência AFP

SIRTE - As negociações sobre a paz em Darfur foram inauguradas neste sábado, na Líbia, com uma admissão de prévio fracasso por parte do anfitrião Muamar Kadhafi por causa da ausência dos principais grupos rebeldes, apesar do anúncio de um cessar-fogo unilateral por parte do governo sudanês.

- Não se pode alcançar a paz sem os grupos fundamentais da rebelião - afirmou Kadhafi no discurso de abertura a conferência realizada em Sirte, leste de Trípoli.

- Creio que esta conferência deve parar aqui - acrescentou, considerando que uma intervenção estrangeiras não fará mais do que "piorar as coisas" e se comprometendo em tratar do tema em sua condição de presidente em exercício da Comunidade de Estados Sahelo-Saharianos, da qual o Sudão faz parte.

O Movimento Exército de Libertação do Sudão e o Movimento pela Justiça e a Igualdade "são grupos fundamentais", insistiu.

- Considero seus dirigentes como filhos, apesar de desobedientes, e sem eles não se pode alcançar a paz - afirmou o dirigente líbio.

Algumas destas facções colocam justamente em dúvida a neutralidade de Trípoli no conflito.

Este boicote dificulta os esforços das Nações Unidas e da União Africana visando devolver paz a Darfur, onde os rebeldes combatem contra o exército governamental desde fevereiro de 2003 reclamando uma divisão mais justa dos recursos e uma autonomia maior para uma região "marginalizada".

Antes do início da reunião, o governo sudanês decidiu anunciar um cessar-fogo, conforme informou o ministro das Relações Exteriores sudanês, Al-Samani al-Wasila al-Samani.

- O governo está preparado para tomar todas as medidas necessárias para avançar no processo de paz - disse ele.

O governo sudanês enviou a Sirte uma grande delegação de cerca de 30 ministros e autoridades tendo à frente o vice-presidente Nafi Ali Nafi.

Seis grupos rebeldes pouco representativos confirmaram presença no encontro.

Na abertura da reunião, o secretário-geral da ONU, Ban Ki Moon, afirmou estar decepcionado com o boicote e advertiu que os "os movimentos que continuam à margem têm muito a perder".

Os grupos rebeldes que boicotam as conversações de paz, no entanto, se declararam dispostos a retomar os contatos com os mediadores da ONU e da União Africana para alcançar uma "verdadeira solução" nesta região do Sudão.

- Estamos dispostos a falar com os mediadores para chegarmos a um acordo sobre as questões de procedimento e chegar a uma verdadeira solução - declarou à AFP Jar Al Nabi Abdel Karim, falando em nome das seis facções do Movimento Exército da Libertação do Sudão.

Abdel Karim, contatado em Juba, capital da região semiautonôma do sul do Sudão, reprovou os mediadores por não levar em conta as reservas destas facções quanto à celebração de conversações na Líbia.

O chefe da outra facção, Ahmed Abdel Chafi, formulou as mesmas reservas e informou que prosseguem os contatos em Juba para unificar as posições dos seis grupos.

Os dois chefes rebeldes afirmaram não acreditar na realidade do cessar-fogo decretado pelo governo sudanês na abertura das conversações.

A guerra de Darfur e suas conseqüências já deixaram 200.000 mortos desde fevereiro de 2003, segundo as organizações internacionais. Cartum nega esta cifra e fala de apenas 9.000 mortos.