Oposição birmanesa rejeita proposta de diálogo da Junta Militar

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YANGON - O principal grupo de oposição de Mianmar rejeitou na sexta-feira a oferta de diálogo feita pela Junta Militar, qualificando-a de irreal, enquanto a China disse que a brutal repressão às manifestações pró-democracia na antiga Birmânia são um assunto interno e não exigem uma reação internacional.

O general Than Shwe, chefe da junta, condicionou o diálogo a uma decisão da líder oposicionista Aung San Suu Kyi de abandonar sua campanha por democracia, que faz com que ela esteja em prisão domiciliar na maior parte dos últimos 18 anos, inclusive agora, segundo um porta-voz.

- Eles estão pedindo que ela confesse crimes que não cometeu - disse Nyan Win, porta-voz da Liga Nacional pela Democracia, o partido da Nobel da Paz Suu Kyi, cuja ampla vitória eleitoral em 1990 foi ignorada pelos generais.

Than Shwe, atual líder de um regime militar que dura 45 anos, estabeleceu as condições para um diálogo direto durante seu encontro, na terça-feira, com o enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari, segundo a TV estatal.

Esses termos foram anunciados na véspera de Gambari apresentar um relato da sua missão ao Conselho de Segurança da ONU. As autoridades informaram que Suu Kyi deve abandonar 'o confronto' e as 'medidas obstrutivas', bem como o apoio a sanções internacionais a Mianmar e à 'total devastação' -- termo que a TV estatal não explicou.

- É muito difícil ver como isso seria produtivo, porque basicamente ele pediu a Aung San Suu Kyi que se renda publicamente antes que a reunião ocorra - disse o especialista David Steinberg, da Universidade Georgetown (EUA), à TV Reuters.

'Poder-se-ia dizer que é um estratagema psicológico, e ao mesmo tempo está muito claro que os militares não estão fazendo quaisquer concessões', afirmou.

Nyan Win exigiu que Suu Kyi possa responder publicamente, o que dificilmente ocorrerá. A única imagem dela desde a última detenção, em maio de 2003, surgiu na semana passada. Ela aparece em uma foto borrada, em frente à sua casa, atrás de uma fila de militares, quando manifestantes pró-democracia inexplicavelmente puderam passar as barricadas que isolam sua rua.

A Junta Militar provocou indignação mundial nas últimas semanas com a dura repressão às manifestações pró-democracia lideradas por monges budistas, as maiores em quase 20 anos no país.

Pessoas que aplaudiram as passeatas nas calçadas podem ser condenadas a de dois a cinco anos de prisão, segundo Win Min, que fugiu para a Tailândia após a repressão aos protestos de 1998, que matou até 3.000 pessoas. Os líderes das manifestações das últimas semanas podem pegar até 20 anos de cadeia, segundo ele.

O grupo oposicionista Voz Democrática da Birmânia, com sede na Noruega, disse que cerca de 50 estudantes que fizeram uma manifestação na cidade de Mandalay foram condenados a cinco anos de trabalhos forçados, segundo seus familiares.