Árabes-israelenses vivem sob suspeita em Israel

Agência EFE

ISRAEL - Para os palestinos radicais, eles são traidores; para a maioria dos israelenses, são espiões; para eles mesmos, são os 1,3 milhão de árabes com cidadania israelense que vivem sob a constante suspeita de deslealdade.

- Estamos sendo observados. Os palestinos ficam atentos a tudo o que fazemos, especialmente quando morre alguém na Cisjordânia. Os judeus fazem o mesmo, principalmente se há um ataque suicida - diz Riad Kabha, prefeito da cidade árabe de Bartaa (norte de Israel).

Um episódio isolado reabre o debate sobre se um quinto da população do país - composta por palestinos que permaneceram no país após a criação do Estado judeu em 1948, assim como seus descendentes - é fiel a Israel.

A última faísca estourou há uma semana. O motivo: o tiroteio desencadeado na Cidade Antiga de Jerusalém, quando um árabe da Galiléia tomou a arma de um vigia de um seminário judaico.

A direita israelense interpretou o incidente - que terminou com a morte do atacante e 11 feridos - como mais uma prova de que os árabes-israelenses traem Israel, e são mais leais à origem palestina que ao país onde têm direito a nacionalidade.

- Antes de tudo sou árabe muçulmano. Eu me sinto mais próximo dos palestinos que de Israel embora tenha nascido neste Estado - afirmou Abu Hussein em frente à sua loja de narguilé, em Umm el-Fahem, onde fica a principal concentração árabe do país.

- Tenho muito vivo que meu avô chegou a este lugar em 1949, fugindo de um dos povos vizinhos que não sobreviveram à guerra após a criação de Israel - acrescentou.

Hussam, de 24 anos, é uma exceção entre os árabes: tem namorada judia, "80%" dos amigos são judeus e a companhia de material de escritório em que trabalha tem donos com a mesma religião.

A visão deste jovem é muito diferente da de seu amigo Abu Hussein, embora vivam no mesmo povoado, cercado por montanhas, com uma mesquita no alto, onde as mensagens de "bem-vindo" rompem a imagem monolítica que se tem sobre o Estado judeu.

- Sinto-me como qualquer israelense. Se este lugar passar para o controle palestino, fujo para Tel Aviv! - afirmou Hussam, sem titubear, ao ser perguntado sobre o que faria se, num eventual acordo de paz, as colônias judaicas da Cisjordânia fossem trocadas por aldeias árabes em Israel, como vários políticos propuseram.

O subdiretor de uma escola em outro povoado árabe da região de Musmus, Abdullah Ziab,não se envergonha de se identificar com Israel.

- Nasci neste país e sou parte dele - disse, antes de ser interrompido pela filha Rubam para afirmar que ela era "primeiro árabe e depois israelense".

Eles têm posturas diferentes diante do debate interno de muitos árabes-israelenses que têm que se mostrar solidários ao Estado que ocupa há 40 anos a região de seus companheiros de origem e que expulsou seus antepassados de suas terras.

Um país que, além disso, os trata como cidadãos de segunda, e os discriminam na distribuição de orçamentos.

Apesar de os judeus acreditarem que os árabes com os quais compartilham a cidadania são uma ameaça, os números desmentem essa idéia: menos de 1% dos atos violentos contra Israel é obra de cidadãos árabes que vivem no país, segundo o professor Ilan Shdema, especialista na minoria israelense de origem palestina.

Desde 2000, algumas dezenas de árabes-israelenses foram condenados na Justiça por estes motivos O ator e cineasta árabe-israelense Mohammed Bakri recorre a um curioso jogo de troca de personalidade para descrever seu caso no seio de uma comunidade que parece ser incompreendida por todos.

- Apesar de ser palestino, eu me sinto o novo judeu do mundo. Os judeus são uma minoria e eu sou uma minoria em Israel. As sociedades não amam as minorias e esta experiência me acerca aos judeus - afirma Bakri na compilação de entrevistas "Israël Autrement", publicada na França, onde mora.

Apesar do conflito de identidade que os árabes com nacionalidade israelense vivem, não é preciso passear por um dos povoados que se estendem pela vizinha Cisjordânia para comprovar uma coisa: os irmãos de língua e cultura dos territórios palestinos ocupados por Israel não sofrem com esse problema, mas vivem muito pior.