América Latina, ausente nos programas dos candidatos franceses

Agência AFP

PARIS - Uma região com uma democracia frágil e mudanças políticas inquietantes: a América Latina é pouco mencionada nos programas de governo dos candidatos à presidência da França, que fizeram uma campanha quase que inteiramente dedicada às questões internas do país.

- Não há nenhuma reflexão ou proposta dos candidatos franceses sobre a América Latina. A política exterior de maneira geral ficou de fora dessa campanha porque o estrangeiro é visto pelos franceses como uma ameaça e os políticos evitam tocar no assunto - declarou à AFP Jean Jacques Kourliandsky, especialista em América Latina do Instituto Francês de Relações Internacionais e Estratégias (IRIS).

De acordo com Kourliandsky, a política que o futuro presidente da França aplicará em relação à América Latina é um "mistério" que só será desvendado após as eleições do dia 22 de abril.

O continente só foi citado até agora pelos candidatos em campanha quando o tema são os cinco anos do desaparecimento da política Ingrid Betancourt, de nacionalidade franco-colombiana, seqüestrada pelas FARC no dia 23 de fevereiro de 2002.

- É triste mas é assim. A única vez que a América Latina esteve presente foi quando os candidatos tiraram fotos com os filhos de Betancourt, e em menor escala quando receberam a primeira-dama argentina Cristina Kirchner, em fevereiro - disse o especialista.

Ele lamenta que ambos os casos foram uma "divulgação de questões vinculadas aos Direitos Humanos".

No amplo programa do grande favorito das eleições, o conservador Nicolas Sarkozy, há apenas uma frase dedicada à América Latina, na qual o candidato comemora o sucesso das recentes votações em vários países do continente, mas faz um alerta a respeito da "fragilidade da democracia".

- Devemos estar atentos aos desvios autoritários e populistas, seja por parte de dirigentes de direita ou de esquerda - limita-se a comentar o candidato.

Sua adversária, a socialista Ségolène Royal, tem uma imagem mais nítida da América Latina - graças, em grande parte, à amizade com a presidente do Chile, Michele Bachelet, com quem se reuniu em Santiago em janeiro de 2006 e uma das figuras que "inspirou" sua campanha à presidência da França.

- Se desejamos construir um mundo mais justo, precisamos de uma América Latina forte e unida - declarou Royal ao receber embaixadores latinoamericanos em Paris.

A candidata se comprometeu a "reequilibrar as relações com a América, conferindo igual importância ao norte e ao sul".

Ao contrário do que se poderia esperar, a extrema-esquerda francesa -que lançou cinco candidatos no atual pleito - também não citou a América Latina em seu programa, por mais ligada que esteja ao continente devido ao movimento anti-globalização e ao Fórum Social Mundial, nascido e por muito tempo sediado em Porto Alegre, no sul do Brasil.

- Desde 1981 as campanhas eleitorais francesas vêm caindo de nível. A política externa não é tema principal nem secundário: simplesmente não existe. Os candidatos preferem falar da criação de um ministério da Imigração e Identidade Nacional, o que demonstra claramente como estão os ânimos no país - explicou um especialista do Instituto de Altos Estudos para a América Latina de Paris.

Para surpresa dos especialistas, quem dedicou um grande artigo ao futuro das relações com a América Latina foi o líder da extrema-direita Jean Marie Le Pen.

- Minha presidência preencherá o vazio diplomático que tem marcado nossas relações com a América Latina. A França falhou até agora em todas as suas tentativas com a região - afirmou Le Pen no semanário National-Hebdo publicado por seu partido, a Frente Nacional.

No longo artigo, Le Pen elogiou também a figura do presidente colombiano Álvaro Uribe e sua luta pela segurança, prometendo uma "aliança de civilizações com a América Latina onde inimigos como o islamismo também estão presentes."