Apesar de atentados, seguidores de Sadr prometem não retaliar

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BAGDÁ - O bloco liderado pelo clérigo xiita Moqtada Al Sadr ainda discute seu futuro político após abandonar o governo iraquiano, mas sua milícia não vai pegar em armas, mesmo depois da onda de ataques em bairros xiitas de Bagdá, disseram líderes do movimento.

Um deles, Abdul-Mehdi Al Muteyri, disse à Reuters na quinta-feira que há uma crescente pressão dos xiitas comuns para que a milícia Exército Mehdi volte às ruas para se vingar dos carros-bomba que na quarta-feira mataram 191 pessoas na cidade, atribuídos ao grupo sunita Al Qaeda.

- Os iraquianos não terão paciência por muito mais tempo. Há pressão do nosso povo, empurrando-nos a fornecer segurança, mas não podemos agir sem a aprovação do governo, disse Muteyri.

As declarações dele e de outros dirigentes sadristas indicam que o clérigo antiamericano continua dando apoio à operação de segurança promovida pelos EUA e pelo governo local em Bagdá, o que para muitos é a última chance de evitar uma guerra civil entre xiitas e sunitas.

Sadr retirou nesta semana seus seis ministros do governo, em protesto contra a falta de prazos para a desocupação norte-americana. A primeira preocupação que surgiu então foi de que ele talvez não conseguisse mais controlar sua milícia.

Sadr liderou duas revoltas contra as forças dos EUA em 2004, mas então se voltou para a política institucional e foi importante nas negociações que levaram o primeiro-ministro Nuri Al Maliki ao poder, um ano atrás.

Washington considera o Exército Mehdi como a maior ameaça individual à paz no Iraque. Mas o deputado Bahaa Al Araji disse que os sadristas, que mantêm suas vagas no Parlamento, vão continuar no processo político, provavelmente na oposição.

- Vamos nos dedicar a monitorar o Estado a partir do Parlamento, onde temos uma grande bancada, afirmou.

Já um importante político sunita disse à Reuters, sob anonimato, que sua comunidade teme que o Exército Mehdi esteja apenas aguardando o dia em que os EUA começarão a se retirar.

- Nas últimas semanas, admito que ouvimos a voz da moderação por parte do movimento, mas tememos que eles estejam esperando a tempestade norte-americana amainar para ressurgir capitalizando a fraqueza das forças iraquianas, assim que os soldados norte-americanos saírem, afirmou.

Muteyri rejeitou tal versão.

- É difícil para nós voltar à resistência armada. O ocupante conseguiu esgotar nossa energia com bombas e terrorismo, de modo que todos estão fartos do derramamento de sangue.

Os militares dos EUA prenderam centenas de sadristas nos últimos meses, inclusive alguns assessores diretos do clérigo.

Os EUA dizem que Sadr está no Irã, sugerindo que ele estaria se escondendo da repressão. Assessores garantem que Sadr permanece no Iraque, discretamente -- não é visto em público há meses.

Um outro dirigente do grupo disse que 'no futuro nós (sadristas) só vamos nos aliar com os que acreditam que a ocupação está na raiz dos nossos problemas e que desejam acelerar a partida (dos soldados estrangeiros).'

Outra razão citada pelos sadristas para deixar o gabinete de Maliki foi a discordâncias com as quotas partidárias que, segundo eles, prejudicam a capacidade do primeiro-ministro de governar -- uma posição que segundo analistas vai dar popularidade ao grupo, por dar a impressão de que os sadristas se colocam acima de interesses partidários.

O governo Maliki contém xiitas, curdos e árabes sunitas. Havia muitas queixas contra o desempenho dos ministérios comandados pelos sadristas.