Fé não pode ser imposta, diz Papa em discurso no Canadá

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Foto: Epa
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Após ter se desculpado pelos abusos cometidos contra povos indígenas em antigos internatos católicos no Canadá, o papa Francisco se encontrou com nativos em uma igreja de Edmonton e disse que a fé não pode ser imposta.

O evento ocorreu na tarde de segunda-feira (25), na Igreja do Sagrado Coração dos Primeiros Povos, uma das mais antigas da cidade e que ostenta o título de paróquia nacional das Primeiras Nações (como são chamados os povos indígenas canadenses) e das comunidades métis e inuit.

"Estou feliz por estar entre vocês e por rever os rostos de diversos representantes indígenas que me encontraram em Roma poucos meses atrás. Aquela visita significou muito para mim, agora eu estou na casa de vocês, amigo e peregrino na sua terra", declarou Jorge Bergoglio, que usou novamente uma cadeira de rodas para se deslocar.

Em seu discurso, o pontífice admitiu que muitas vezes existe a tentação de "impor" a fé em Deus. "Mas o senhor não age assim. Ele não força, não sufoca, não oprime; pelo contrário, ele ama, liberta e nos deixa livres. Não se pode anunciar Deus em um modo contrário a Deus", disse.

A declaração faz referência aos crimes cometidos pela Igreja nas chamadas escolas residenciais, internatos criados pelo governo e administrados por padres católicos para assimilar membros de povos nativos.

Há pouco mais de um ano, indígenas canadenses descobriram valas comuns com centenas de corpos não identificados nos terrenos dessas escolas, expondo as feridas nunca curadas da cristianização forçada de nativos.

Os internatos tinham como objetivo "educar" os indígenas de acordo com os preceitos católicos, mas, para isso, retiravam crianças à força de suas comunidades e as obrigavam a abandonar seus costumes e sua língua.

Além disso, os alunos eram vítimas frequentes de abusos sexuais e físicos por parte dos professores. Estima-se que cerca de 150 mil nativos tenham passado por essas escolas até a década de 1970.

"Não podemos esquecer que, até na Igreja, o joio se mistura com o trigo", afirmou Francisco em Edmonton. "Dói pensar que alguns católicos contribuíram para políticas de assimilação que transmitiam um sentimento de inferioridade, roubando as identidades culturais e espirituais de comunidades e pessoas, cortando suas raízes e alimentando atitudes preconceituosas e discriminatórias, e que isso tenha sido feito em nome de uma educação que se supunha cristã", acrescentou.

Horas antes, em encontro com nativos em Maskwacis, local que abrigava uma escola residencial católica, o Papa já havia pedido desculpas pelos crimes da Igreja. "Eu humildemente peço perdão pelo mal que muitos cristãos cometeram contra os povos indígenas", enfatizou.

Já nesta terça (26), Bergoglio celebra uma missa em um estádio de Edmonton e participa de uma peregrinação em um lago pelo Dia de Santa Ana. (com agência Ansa)

 

Francisco recebe cocar de chefe indígena

O papa Francisco recebeu nessa segunda-feira (25) um cocar do chefe indígena Wilton Littlechild, antigo aluno de um internato no Canadá, no final do encontro com as populações nativas em Maskwacis.

Littlechild, sobrevivente da antiga escola residencial Ermineskin, onde ocorreu a cerimônia, doou ao Papa um cocar, que foi colocado solenemente em sua cabeça ao som de tambores e uma canção tradicional nativa.

O momento foi saudado com forte aplauso dos presentes e ocorreu após Francisco pedir perdão por conta dos abusos feitos pela Igreja católica em diversas regiões do Canadá até meados dos anos 1970.

No período, várias crianças indígenas foram separadas de suas famílias e obrigadas a estudar nos locais determinados pela Igreja. Acredita-se que mais de 150 mil menores foram forçados a morar nesses internatos e milhares morreram ou foram vítimas de abusos. (com agência Ansa)

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