Cinco mortos no caótico aeroporto afegão enquanto o Talibã proclama 'a paz'

Não ficou claro como as vítimas morreram. Uma autoridade dos EUA disse que tropas dispararam para o ar para dissuadir as pessoas que tentavam entrar à força em um vôo militar que deveria tirar diplomatas americanos e funcionários da embaixada da cidade destruída.

Foto: Reuters / StringeR
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Cinco pessoas morreram no caos no aeroporto de Cabul nesta segunda-feira (16), disseram testemunhas, enquanto tropas dos EUA vigiavam a evacuação de funcionários da embaixada um dia depois que o Taleban tomou a capital afegã e declarou que a guerra havia acabado e a paz prevalecia.

Não ficou claro como as vítimas morreram. Uma autoridade dos EUA disse que tropas dispararam para o ar para dissuadir as pessoas que tentavam entrar à força em um vôo militar que deveria tirar diplomatas americanos e funcionários da embaixada da cidade destruída.

Uma testemunha, esperando por um vôo por mais de 20 horas, disse que não estava claro se os cinco foram baleados ou mortos em um estouro. Autoridades americanas no aeroporto não estavam imediatamente disponíveis para comentar o assunto.

Três corpos puderam ser vistos no chão perto do que parecia ser uma entrada lateral de um aeroporto, em vídeo postado nas redes sociais. A Reuters não conseguiu verificar a filmagem. Outra testemunha disse que também viu cinco corpos.

O caos veio quando as autoridades do Taleban declararam o fim da guerra e emitiram declarações com o objetivo de acalmar o pânico que vinha crescendo em Cabul enquanto os militantes, que governaram de 1996 a 2001, derrotaram as forças do governo apoiado pelos EUA.

O presidente Ashraf Ghani fugiu do país nesse domingo (15), quando os islâmicos entraram em Cabul praticamente sem oposição, dizendo que queria evitar derramamento de sangue.

O porta-voz do Taleban, Suhail Shaheen, disse em uma mensagem no Twitter que seus combatentes estavam sob ordens estritas de não ferir ninguém.

"A vida, a propriedade e a honra de ninguém devem ser prejudicadas, mas devem ser protegidas pelos mujahideen", disse ele.

Mais cedo, Mohammad Naeem, porta-voz do gabinete político do Taleban, disse à TV Al Jazeera que o povo afegão e o Taleban testemunharam os frutos de seus esforços e sacrifícios ao longo de 20 anos.

"Graças a Deus, a guerra acabou", disse ele.

O Taleban levou pouco mais de uma semana para assumir o controle do país depois que uma varredura relâmpago que terminou em Cabul quando as forças do governo , treinadas por anos e equipadas pelos Estados Unidos e outros a um custo de bilhões de dólares, derreteram.

A Al Jazeera transmitiu imagens do que disse serem comandantes do Taleban no palácio presidencial com dezenas de combatentes armados.

Naeem disse que a forma do novo regime no Afeganistão ficará clara em breve, acrescentando que o Taleban não quer viver em isolamento e clama por relações internacionais pacíficas.

Os militantes procuraram projetar uma face mais moderada, prometendo respeitar os direitos das mulheres e proteger estrangeiros e afegãos.

Muitos afegãos temem que o Taleban volte às práticas severas do passado em sua imposição da lei religiosa sharia. Durante seu governo, as mulheres não podiam trabalhar e punições como apedrejamento, chicotadas e enforcamento eram aplicadas.

Tanto as Nações Unidas quanto os Estados Unidos disseram na semana passada ter recebido relatos de que combatentes do Taleban estavam executando soldados do governo que se rendiam.

'CHOQUE'

Autoridades do Taleban disseram não ter recebido relatos de confrontos em qualquer lugar do país: "A situação é pacífica", disse um deles, acrescentando que o Taleban controlava 90% dos prédios do estado e os combatentes foram instruídos a evitar qualquer dano.

As ruas do centro de Cabul estavam quase desertas na manhã de uma segunda-feira ensolarada, enquanto os residentes refletiam sobre o futuro.

"Estou em estado de choque total", disse Sherzad Karim Stanekzai, que passou a noite em sua loja de tapetes para protegê-la. "Eu sei que não haverá estrangeiros, nem pessoas internacionais que virão agora para Cabul."

As pessoas se aglomeraram no aeroporto desde a noite de domingo com centenas vagando nas pistas no escuro, puxando bagagens e lutando por um lugar em um dos últimos voos comerciais a partir antes que as forças dos EUA assumissem o controle do tráfego aéreo.

Dezenas de homens tentaram subir em uma passarela aérea de embarque para embarcar em um avião enquanto centenas de outros circulavam, mostrou um vídeo postado na mídia social.

As forças dos EUA desistiram de sua grande base militar em Bagram, cerca de 60 km ao norte de Cabul, há várias semanas, deixando o aeroporto de Cabul como sua única saída, para raiva de muitos afegãos.

"Os americanos não têm o direito de segurar o aeroporto para uso próprio, eles poderiam ter usado sua própria base para tirar as pessoas", disse uma pessoa que tentava sair.

Havia a perspectiva de caos nos céus do Afeganistão também. Sua autoridade de aviação civil aconselhou aeronaves em trânsito a redirecionar, dizendo que seu espaço aéreo estava descontrolado.

NÃO VOLTAR

O Pentágono autorizou no domingo mais 1.000 soldados para ajudar a evacuar os cidadãos americanos e afegãos que trabalhavam para eles, expandindo sua presença de segurança no terreno para quase 6.000 soldados nas próximas 48 horas.

Um porta-voz do Departamento de Estado dos EUA disse na manhã de segunda-feira que todo o pessoal da embaixada, incluindo o embaixador Ross Wilson, foi transferido para o aeroporto de Cabul, principalmente de helicóptero, para aguardar a evacuação e que a bandeira americana foi baixada e removida do complexo da embaixada.

Países ocidentais, incluindo França, Alemanha e Nova Zelândia, disseram que estão trabalhando para retirar cidadãos, bem como alguns funcionários afegãos.

Em uma postagem no Facebook, Ghani disse que havia deixado o país para evitar confrontos com o Taleban que colocariam em perigo milhões de residentes de Cabul. Alguns usuários de mídia social rotularam Ghani, que não revelou sua localização, de covarde por deixá-los no caos.

Em Washington, oponentes da decisão do presidente Joe Biden de encerrar a guerra mais longa da América, lançada após os ataques de 11 de setembro de 2001, disseram que o caos foi causado por uma falha de liderança.

Biden tem enfrentado crescentes críticas internas depois de seguir um plano, iniciado por seu antecessor republicano, Donald Trump, de encerrar a missão militar dos EUA em 31 de agosto.

O ministro da Defesa da Grã-Bretanha disse que as forças britânicas e da Otan não retornariam para lutar contra o Taleban.

"Isso não está previsto", disse Ben Wallace à Sky News.(com agência Reuters)

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