Votos por correios nos EUA podem atrasar resultado das eleições

George Frey/Epa
Credit...George Frey/Epa

Os votos por correios nos Estados Unidos se tornaram, nessas eleições de 2020, um dos maiores pontos de interrogação para a disputa.

A constante ameaça do republicano Donald Trump de não reconhecer uma possível vitória do democrata Joe Biden e de entrar na justiça contra os resultados das cédulas enviadas por via postal colocam em dúvida o que acontecerá após as urnas da costa oeste serem fechadas nesta terça-feira (3). Basicamente, se um dos candidatos não tiver uma vitória robusta hoje, o resultado deve ser alvo de inúmeros questionamentos.

O atual presidente norte-americano acusa a modalidade, que foi ampliada por conta da pandemia do coronavírus Sars-CoV-2 para quase todos os estados, de ter um alto risco de fraude. No entanto, em uma pesquisa do Instituto Brennan Center for Justice, de 2017, mostrou que a possibilidade de fraude é de menos de 0,0009%.

Como não há uma lei eleitoral nacional sobre o tema, cada estado define as regras de contagem e envio de maneira diferente - o que deixa a situação ainda mais confusa por si só. E, por conta das constantes acusações de Trump, diversos foram os governadores de ambos os partidos que fizeram propagandas para garantir que é seguro votar através dessa modalidade.

Mas, qual o motivo da polêmica? Segundo o professor Marcio Coimbra, coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, a votação antecipada por correio é uma prática "característica do Partido Democrata".

"O voto antecipado em todas as eleições anteriores, sempre é um voto com tendência democrata. O republicano é mais preguiçoso, o republicano tende, às vezes, a não votar. [...] Então, o que você precisa fazer para ganhar, considerando que o republicano é mais preguiçoso? Você precisa mobilizar esse cara para votar. Todas as eleições em que você tem essa estratégia, onde os republicanos conseguem botar o seu militante na rua para votar, ele ganha", destaca Coimbra à ANSA.

Um outro ponto polêmico refere-se à demora esperada para a contagem dos votos. Enquanto alguns estados já iniciaram a contabilizá-los, outros só começam a contar a votação assim que as urnas forem fechadas nesta terça. Além disso, há estados em que serão permitidos a chegada das cédulas com votos até a próxima sexta-feira (6). Tudo isso coloca o resultado oficial da disputa sob incerteza porque não se sabe quanto tempo vai levar para a apuração.

Antes mesmo do "Election Day", os dois partidos já entraram com ações na Suprema Corte para ampliar a data de recebimento das cédulas: na Pensilvânia, vitória dos democratas com a ampliação do prazo; no Wisconsin, vitória dos republicanos com a determinação do encerramento em 3 de novembro.

Nesta segunda-feira (2), o chefe da Casa Branca voltou a dizer que se o resultado não for conhecido já na noite de terça-feira (madrugada no Brasil), ele vai recorrer à Suprema Corte.

Recentemente, Trump indicou a juíza conservadora Amy Barrett para compor o plenário, fazendo com que a máxima instância judicial dos EUA tenha seis juízes conservadores e apenas três liberais.

O professor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas, Pedro Brites, no entanto, não acredita que Trump vai tentar impugnar os resultados, mas pontua que "é crítico só o fato dele ter posto isso sob ameaça".

"Não tem como, independente do resultado, desconsiderar o quanto essas eleições marcaram um processo de polarização na sociedade americana. A gente viu isso de forma muito efetiva não só pelas manifestações [antirracismo] e pela criação de milícias armadas, principalmente de extrema-direita, mas também de milícias negras armadas. Principalmente as de extrema-direita têm ganhado força nos EUA e isso é um símbolo muito crítico da situação que vem acontecendo na sociedade americana. A declaração do Trump é sintoma desse processo, não só citou, mas ajudou a aumentar a crítica e a crescer essa fratura na sociedade americana", diz Brites à ANSA.

Segundo dados do US Elections Projects, mais de 99,6 milhões de norte-americanos votaram de maneira antecipada em 2020. Destes, 63,9 milhões foram votos por correios já recebidos pelos centros de votação e pouco mais de 28,2 cédulas estão em situação "pendente". Em números absolutos, os estados que mais registraram votos antecipados (pessoalmente e por correios) foram a Califórnia (12 milhões), o Texas (9,7 milhões) e a Flórida (8,9 milhões).(com agência Ansa)